A menina que roubava livros (Markus Zusak)

Ao perceber que a pequena Liesel Meminger, uma ladra de livros, lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. A mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler. Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade. A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História.

Tenho lido muito pouco ultimamente. Houve uma época em que eu passava dos 50 livros por ano. Nos dois últimos, por vários motivos, não cheguei nem a 5 completos. Uma das minhas metas para 2016 é ler mais (e terminar os livros que deixei pela metade em 2015), mesmo que não volte a alcançar aqueles números altos. Sinto falta do prazer de mergulhar em uma história e me esquecer de tudo, de quase passar do ponto, de carregar um livro o tempo todo, de querer ler em cada segundo disponível.

A Menina Que Roubava Livros (The Book Thief)  foi um dos poucos que li em 2014, antes da famigerada ressaca literária chegar ao ápice no ano seguinte. Queria ter lido em uma época melhor, para aproveitar mais, me envolver mais, me empolgar mais.

Em um livro com a narradora mais inusitada que eu já conheci - a Morte - Markus Zusak nos apresenta Liesel Meminger, a pequena roubadora de livros que acompanhamos durante a Segunda Guerra Mundial. Esse foi um período difícil para toda a humanidade e, particularmente, para os alemães, mas este não é um livro triste - embora tenha várias cenas tristes. É um livro sobre a força e a resiliência de uma criança, pelo olhar de um ser que já viu de tudo no mundo. É um livro sobre família, sobre lealdade, sobre amizade. É um livro sobre o poder das palavras e da ficção para manter a sanidade em tempos difíceis (o que eu, sendo a apaixonada por ficção que sou, aprovei sem ressalvas).

A dualidade entre o cinismo da Morte e a inocência de Liesel, especialmente no início do livro, dá origem a citações belíssimas. Há algo diferente na escrita de Zusak, algo que não sei explicar, mas que dá um brilho especial a cada frase, tanto nos grandes momentos quanto em coisas banais.

E os personagens - ah, os personagens! Além da protagonista e da narradora já citadas, muitos outros nomes aparecem na história e, mesmo desconfiando que o destino deles não seria dos melhores, é impossível não se apegar. O pai que ensina Liesel a ler, o judeu que se esconde no porão, a mulher do prefeito que facilita a incursão da menina no mundo dos livros, o melhor amigo Rudy... Tenho um carinho especial por Rosa Hubermann, a mãe adotiva que ama Liesel à sua maneira, e pela sua relação com a menina. Personagens que me fizeram sorrir, chorar e querer protegê-los.

Creio ser desnecessário dizer isso sobre um livro tão aclamado, mas A Menina que Roubava Livros é uma história maravilhosa, tocante e certamente recomendada.

Pode alguém roubar a felicidade? Ou será que ela é apenas mais um infernal truque interno dos humanos?

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