O folheto que mudou a minha vida


Uma coisa que eu sempre penso (e digo) é que eu gostaria de escrever mais sobre coisas relacionadas à minha profissão. Já comecei vários textos, mas nunca consegui terminá-los e não sabia por que, até perceber que precisava começar do começo. A minha cabeça funciona com uma lógica que eu não sei explicar, mas algumas coisas precisam vir antes de outras, ainda que não sejam realmente dependentes.

O meu começo foi em março de 2000. Eu poderia descobrir o dia certo, pois está tudo registrado em agendas (tive duas naquele ano), mas essa época específica é uma caixa de memórias diversas que prefiro não abrir no momento. Em algum momento do mês de março do ano de 2000, eu estava na escola - oitava série do Ensino Fundamental - e duas pessoas entraram na sala para distribuir folhetos de um cursinho pré-CEFET. Eu me lembro bem do quão fascinada fiquei com aquilo, porque eu nunca tinha ouvido falar em curso técnico ou daquela escola que parecia maravilhosa.

Aos 13 anos, eu não tinha muito do meu futuro planejado. Sabia que terminaria o EF dali a alguns meses. Também sabia que eu queria fazer faculdade de Direito e viver a fantasia de salvar a humanidade dos criminosos em tribunais como os que eu via nos filmes. Hoje, tendo alguns amigos advogados, posso dizer com segurança que, felizmente ou infelizmente, a realidade da maioria é bem diferente da versão menos sangrenta de How to get away with murder que existia na minha cabeça (até porque, na vida real, universitários não possuem a bela face do Jack Falahee).

Como eu imaginava que a minha vida seria aos [quase] 30.
Parece exagero quando eu digo que um folheto mudou a minha vida, mas não é. Naquela época, eu não fazia ideia do efeito borboleta que aquilo desencadearia para mim, mas fazer a prova para entrar no cursinho (que, ironicamente, acabou nem sendo o mesmo do folheto) foi uma das decisões mais importantes da minha vida, porque dali pra frente, o caminho foi ficando cada vez mais certo.

Como eu cheguei na Informática, porém, ainda é uma outra história. Outra decisão importante, mas que poderia ter dado muito errado. Eu nunca soube lidar bem com a indecisão, meus amigos mais próximos sabem bem o quanto isso me deixa nervosa. Quando outra pessoa está indecisa, eu decido; quando eu estou indecisa, eu também decido, mesmo correndo o risco de me arrepender depois. Assim, eu tive que escolher qual curso técnico gostaria de fazer, embora, na verdade, eu só quisesse uma escola boa para cursar o Ensino Médio. Fiquei entre dois: Turismo, que era o único curso mais próximo da área de Humanas, e Informática Industrial, que me parecia (não é) genérico o bastante para eu aprender alguma coisa que fosse útil na área que eu pretendia seguir depois. Ambos eram muito concorridos, mas Informática era o pior. Como eu era a aluna que tirava as maiores notas nos simulados, meus colegas me desafiaram a passar para o curso mais difícil. É óbvio que eu tinha que provar para eles que conseguiria, como ficaria a minha fama de Garota Inteligente se me acovardasse, não é mesmo? (Crianças, não sigam meu exemplo, esse nem sempre é um bom método para escolher o que você vai fazer pelo resto da vida.)

Passei na prova (apesar de ter errado uma questão de propósito; outro exemplo para não seguir). Passei três anos incríveis no lugar que definiu muito do que eu sou hoje - e sobre o qual é melhor eu não começar a falar, pois é possível que eu não pare mais. No meio do curso, depois de sobreviver a um ano e meio de EM e um semestre de curso técnico mal sabendo ligar um computador, eu percebi que gostava daquilo. Todos os manuais das TVs do meu pai que eu lera na infância começaram a fazer sentido. O amor pela minha agenda eletrônica começou a fazer sentido. A Garota de Exatas dentro de mim começou a aparecer e nunca mais se foi. Continuei gostando de ler, de escrever, de História, mas descobri que sou muito mais apaixonada pela Matemática, a Física, a lógica.

Como realmente é a minha vida aos [quase] 30.
Depois daquele folheto, daquela prova, da Garota de Exatas se descobrindo, vieram o vestibular, o estágio, os quase 10 anos na mesma empresa, algumas promoções, Depois veio a demissão, que foi outro ponto de virada na minha vida, e uma nova fase, que já dura quase dois anos. Nada disso teria acontecido se não fosse aquele folheto. Eu não faço a menor ideia de onde eu estaria se não fosse aquele folheto. Talvez, eu acabasse encontrando o mesmo caminho em algum momento. Talvez, eu tivesse engravidado do garoto que quis ficar comigo alguns meses depois, e eu só não aceitei porque gostava de um colega do cursinho, como aconteceu com várias das minhas colegas, e hoje tivesse uma vida na qual não consigo me imaginar. Ou, talvez, eu acabasse me tornando, sim, uma Annalise Keating (menos arrogante e dona da razão, por favor) e estivesse ajudando a colocar chefes do tráfico e políticos corruptos na cadeira (outra vida na qual eu não consigo mais me imaginar). Nunca saberemos.


Quando comecei a escrever, eu não sabia exatamente aonde queria chegar e, para ser sincera, ainda não sei. A verdade é que há várias possibilidades a partir daqui e quero falar individualmente sobre cada uma delas. Só o parágrafo anterior pode ser desmembrado em meia dúzia de posts. Como eu sempre tenho problemas com os finais dos posts, vou deixar que esse fique em aberto. Em vez de alguma grande reflexão ou uma dica extremamente útil para quem está passando por algo que já passei, fingirei que este é apenas um post pessoal, caso alguém se interesse em saber um pouco mais sobre a vida de uma pessoa que, graças a Deus, acertou na escolha de uma profissão da forma mais irresponsável possível. Ou, caso alguém queira conversar, contar a sua história, fazer perguntas, sugerir outros posts. Me digam, quais decisões mudaram a vida de vocês e pelas quais vocês são gratos (ou se arrependem) hoje?

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