O que eu gostaria que as feministas soubessem


Hoje, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, um símbolo da luta feminina contra as desigualdades sociais a que nós, mulheres, fomos historicamente submetidas. Certamente, como em todos os anos, a internet estará repleta não apenas de textos leves com assuntos supostamente do interesse feminino, quanto de argumentos feministas e anti-feministas.

Creio que este texto não se encaixe em nenhuma dessas categorias. Não é leve, mas também não é exatamente uma exposição de motivos para se estar de um lado ou de outro de um movimento que divide opiniões. É apenas uma pequena tentativa que faço de ser ouvida entre milhares de outras vozes, ciente de que estou correndo um risco enorme de ser mal-interpretada e julgada.

Eu não deveria ter que me explicar, embora tenha escrito e apagado vários parágrafos o fazendo. A verdade é que, desde o momento em que esse post começou a ser concebido na minha cabeça, eu pensei muito em desistir. Porém, no final das contas, o fato de eu ter ficado receosa em escrever é apenas mais um motivo para não desistir, mais um motivo pelo qual vocês precisam saber três coisas sobre mim.

O que eu gostaria que as feministas soubessem (sobre mim)

1. Eu não sou feminista

Repito: Eu não sou feminista. Não sou, porque eu não quero ser.

Quando alguém diz isso na mídia ou na internet, é muito provável que receba de volta o link para um teste simplista de feminismo. Todas as vezes que eu fiz um desses testes, o resultado foi "sim, você é feminista". Talvez, receba também um link listando em que o feminismo acredita e, inevitavelmente, esses textos possuem algo sobre o direito de escolha da mulher.

Acho curioso vivermos numa época em que eu posso rejeitar o meu DNA e dizer que eu não sou mulher, mas não posso rejeitar o resultado de um teste que me dá um rótulo que eu não pedi. Pior! Um rótulo que diz pregar os direitos e a liberdade feminina.

Independente do que dizem os testes, eu continuo não sendo feminista. E também não sou machista.

Essa é a segunda dentre as três respostas mais comuns que não feministas costumam receber, o que também é contraditório, porque, se o feminismo não é o oposto de machismo, então, eu não preciso estar em um lado ou em outro, eu posso simplesmente não concordar plenamente com nenhum dos dois e não querer estar associada a eles. Não faz sentido utilizar uma classificação binária como resultado de uma questão não binária, a menos que o objetivo seja, de fato, confundir e manipular.

Eu não sou machista porque a crença de que pessoas do gênero masculino são superiores às do gênero feminino é incorreta, injusta e prejudicial. Eu não sou feminista porque eu não acredito que o feminismo seja a cura.

2. Eu sei o que é feminismo

A terceira das respostas comuns que alguém recebe quando se declara não feminista é que aquela pessoa não sabe o que é feminismo. Basta uma pesquisa no Google para encontrar esse argumento sendo usado com pessoas famosas, como Kaley Cuoco, Shailene Woodley e Meryl Streep. Enquanto a "você é machista" tem um tom acusatório, esta, assim como a primeira, é uma resposta condescendente, o que, a meu ver, é ainda pior, pois não apenas tira conclusões precipitadas, como também ofende a minha inteligência. É o mesmo argumento pobre de, por exemplo, escritores ou artistas que, frente a uma crítica negativa, dizem que a pessoa não entendeu o que ele quis dizer.

Eu sei o que é feminismo. Ou melhor, eu sei o que feministas dizem ser o feminismo - a teoria cor de rosa - e sei que a prática não é assim tão bonita. A prática envolve, entre outras coisas, essa necessidade de colocar o rótulo de machista em qualquer um que tenha uma opinião diferente. A prática envolve subir no pedestal da iluminação e balançar a cabeça pensando que eu sou apenas mais uma pessoa confusa, que não sabe o que está falando e que ainda precisa ser educada. Enquanto a teoria fala em liberdade, a prática julga.

Feministas argumentarão que isso não é feminismo, que eu acho que sei, mas continuo não sabendo. Acontece que o feminismo não é uma ciência exata, com definições claras nos livros de Física. Também não é uma religião, que possui uma base a ser seguida. O feminismo é um movimento social e, como tal, é vivo. Ele está em constante transformação, ele muda de acordo com as pessoas que o representam. Quem define que o feminismo verdadeiro é o da teoria bonitinha? Quem define que as feminazi não são feministas de verdade? E se elas passarem nos testes que eu mencionei lá em cima?

Eu sei o que é feminismo e eu continuo não sendo feminista, porque eu não quero fazer parte de um movimento cuja própria identidade é contraditória.

Eu também sei o que é machismo, mas falarei mais sobre ele no próximo tópico.

3. Eu me sinto oprimida pelo feminismo

Finalmente, o que eu julgo ser a parte mais importante e um dos motivos que me distancia cada vez mais do feminismo.

Eu não deveria me sentir oprimida por um movimento que alega ter como objetivo a libertação feminina da opressão machista. Mas eu me sinto. Pior: Eu sei que não sou a única. Se fosse, provavelmente, consideraria ser minha culpa, mas sei que não sou, porque conheço várias mulheres que sentem o mesmo.

Minha motivação para este post nasceu em um desses momentos. Começou há duas semanas, no dia que estourou o #freeKesha.

Caso alguém não saiba, a cantora Kesha teve negado o seu pedido de liberação do contrato com o produtor Dr Luke, por quem ela diz ter sido abusada. Em certo momento, eu estava no Twitter quando apareceu uma imagem da cantora chorando. Foi triste. Eu ia dar RT naquela foto, que vinha com um comentário do qual nem me lembro mais, mas parei e fui ver o que mais estava acontecendo no mundo. Mais ou menos nessa mesma hora, eu vi pessoas (sim, mais de uma) fazendo comentários feministas bastante agressivos, inclusive, dizendo diretamente que quem não é feminista não deveria opinar. Nisso, eu desisti completamente do RT, porque me lembrei de outras vezes em que disse alguma coisa para, logo em seguida, ver um textão disfarçado de múltiplos tweets sobre o mesmo assunto, mas sem menção direta a mim. Do tom, que quando não é o agressivo ou o condescendente, dos quais já falei, é de deboche.

E, apenas para deixar claro, não me refiro às feministas radicais que odeiam os homens e blablabla, porque essas eu já bloqueio, para não ser obrigada a ver nada a respeito. Refiro-me a pessoas normais, bem intencionadas e que, embora não sejam minhas amigas, são pessoas que eu acompanho há algum tempo e sei que são legais, mas que, por um motivo que vai além da minha compreensão, se colocam em uma posição de vítimas e acham que precisam se defender de tudo e de todos, quando, muitas vezes, nós estamos do mesmo lado.

Eu me sinto oprimida pelo feminismo quando deixo de dizer algo por medo das respostas. Quando adio a escrita deste post até as 22 horas de segunda-feira, esperando que algo me impeça de finalizá-lo. Quando me sinto culpada por apreciar as amizades masculinas da ficção, ou por gostar mais de trabalhar com homens, ou por ajudar colegas homens a crescerem, enquanto o mundo inteiro está dizendo que eu deveria "empoderar" as mulheres (só Deus sabe o quanto eu odeio essa palavra, mas isso é assunto para outro momento). Eu me sinto oprimida pelo feminismo quando questionam o meu gosto por brincos, esmaltes ou batons, já que eu nunca saberei se gosto mesmo ou se apenas fui condicionada pela sociedade patriarcal a fazer uso de artifícios que me deixem mais agradável ao olhar masculino. E me sinto ainda mais oprimida quando gosto de receber algum elogio - seja o "fiu-fiu" num dia particularmente ruim ou o "hoje você tá gata" de um colega - enquanto milhares de mulheres sofrem com o abuso e a violência. E estou falando apenas das minhas experiências, porque não quero expor ninguém, mas vocês não sabem quantas vezes já vi outras pessoas dizerem o mesmo, inclusive feministas. (E eu gostaria muito que essas pessoas viessem dar sua opinião também.)

E sabe qual é o pior disso tudo? Que eu também sou oprimida pelo machismo. Eu sou uma Garota de Exatas, fiz faculdade em uma turma com 5 mulheres para 35 homens. Já tive que me provar para cliente que, apesar da minha voz de criança, eu tenho mais de 10 anos de experiência. Já precisei de colega homem para me ajudar a ser ouvida em reunião. (E é irônico que agora eu tema que este post prejudique meu possível interesse em, futuramente, trabalhar em uma empresa específica, pois soube recentemente de uma pessoa que foi desclassificada por algo parecido.) Fora do ambiente profissional, já perdi as contas de quantas vezes tive discussões sobre não querer filhos e relógio biológico, ou quantas vezes já me chamaram em um canto para perguntar se eu sou lésbica.

É sufocante ser pressionada por dois lados. É sufocante ter que me encaixar em um padrão, não poder pensar por mim mesma, não poder questionar. E é triste saber que quem diz me defender acaba piorando essa situação. (E não estou implicando que as lutas feministas nunca trouxeram nada de bom, apenas que também tem muita coisa ruim.)

Era para este post ser uma exposição de motivos por que eu não sou feminista, mas acabou virando um desabafo mais pessoal e menos coerente do que eu planejara. Talvez, eu volte a falar sobre o assunto no futuro; talvez, eu me arrependa e nunca mais fale, apenas cale a minha boca como muitos acham que eu deveria e converse apenas com os meus amigos, naquele lugar seguro onde a gente briga, mas continua se amando sem julgamentos.

Respeito acima de tudo

Eu quero um mundo em que as pessoas respeitem as diferenças, as características que nos tornam únicos, mas que também enxerguem a humanidade que nos torna iguais. Eu quero enxergar as pessoas - e ser enxergada - como seres humanos, não como homens-opressores ou mulheres-coitadinhas. Não acho que seja pedir muito. Não acho que eu precise escolher uma caixinha, não acho que eu precise ser qualquer-coisa-ista para isso. Seres humanos, apenas, é isso que somos.

Eu recomendo

Como não consegui dizer tudo o que pretendia e da forma que pretendia, deixo aqui dois links que expressam muito do que eu penso.

CONVERSATION

Back
to top