Eleanor & Park (Rainbow Rowell)

Eleanor & Park é engraçado, triste, sarcástico, sincero e, acima de tudo, geek. Os personagens que dão título ao livro são dois jovens vizinhos de dezesseis anos. Park, descendente de coreanos e apaixonado por música e quadrinhos, não chega exatamente a ser popular, mas consegue não ser incomodado pelos colegas de escola. Eleanor, ruiva, sempre vestida com roupas estranhas e “grande” (ela pensa em si própria como gorda), é a filha mais velha de uma problemática família. Os dois se encontram no ônibus escolar todos os dias. Apesar de uma certa relutância no início, começam a conversar, enquanto dividem os quadrinhos de X-Men e Watchmen. E nem a tiração de sarro dos amigos e a desaprovação da família impede que Eleanor e Park se apaixonem, ao som de The Cure e Smiths. Esta é uma história sobre o primeiro amor, sobre como ele é invariavelmente intenso e quase sempre fadado a quebrar corações. Um amor que faz você se sentir desesperado e esperançoso ao mesmo tempo.
Há cerca de dois anos, uma escritora até então desconhecida começou a aparecer com certa frequência tanto nos blogs que acompanho quanto no Twitter. Confesso que a primeira coisa que me chamou a atenção foi o nome dela, já que não é todo dia que a gente conhece alguém chamado Arco-Íris, mas seus livros também me intrigaram, porque, a julgar pela sinopse, nenhum deles parecia ser tão espetacular quanto estavam dizendo.

Acabei ganhando um deles de presente no amigo oculto do Clube [do Livro] das Chocólatras em 2014 e, tentando lutar contra a ressaca literária, comecei a lê-lo no meio do ano passado (para terminar seis meses depois).

Creio que, a esta altura, a maioria dos leitores do blog já deve também ter visto dezenas de comentários - positivos ou negativos - sobre o livro. O que eu tenho a dizer é, ao mesmo tempo, parecido e diferente da maioria das resenhas que li.

Primeiro, Eleanor & Park é uma história fofa. Ou, pelo menos, ele começa como uma história fofa.

- Romeu e Julieta são apenas dois jovens ricos que sempre tiveram tudo o que quiseram. E, agora, eles acham que querem um ao outro.
- Estão apaixonados... - disse o professor, com a mão no coração.
- Eles mal se conhecem.
- Foi amor à primeira vista.
- Foi ‘Ai, meu Deus, ele é tão fofo’ à primeira vista. Se Shakespeare quisesse fazer você acreditar que eles estavam apaixonados, não diria quase na primeira cena que o Romeu estava pensando muito na Rosaline. Isso é Shakespeare tirando sarro do amor.

Minha citação favorita, a conversa de Eleanor com o professor sobre Romeu & Julieta descreve bem o que eu penso e um dos motivos para eu ter gostado muito de como o relacionamento dos dois protagonistas evoluiu. Um problema que vejo em muitas ficções contemporâneas é que os romances são muito apressados. Entendo e defendo que, se tem gente que gosta desse tipo de história, elas devem, sim, continuar a ser criadas, mas, pessoalmente, não consigo me envolver quando as coisas acontecem rápido demais, porque eu mesma demoro muito a simpatizar com as pessoas, que dirá me apaixonar. Rainbow traz um pouco da inocência do primeiro amor, me levando de volta à minha adolescência, cujas lembranças mais marcantes também envolvem um ônibus, um garoto e muita música. A propósito, a presença da música no livro contribuiu para deixar a história com uma atmosfera diferente, nostálgica.


Uma foto publicada por Cíntia Mara (@cintiamcr) em

Por outro lado, a vida de Eleanor fora daquele ônibus não é das mais fáceis e aí vem a parte em que eu discordo da opinião predominante: enquanto muitos se irritaram com ela, eu queria pegá-la no colo para cuidar.

Para mim, isso não foi nenhuma surpresa, pois já estou acostumada a amar os personagens que são odiados. E eu nem sei exatamente o motivo, mas senti uma empatia muito grande por ela. Nunca passei pelo que ela passou e acredito que, em seu lugar, eu teria agido de forma completamente diferente, mas meu temperamento também é completamente diferente do dela e, da suposta maturidade que se tem aos 29 anos, eu fiquei agoniada por aquela garota e por todas as Eleanores da vida real que eu queria poder salvar. Eu queria poder apresentar a ela as possíveis saídas que ela não conseguia enxergar e ajudá-la a tomar as decisões certas.

Eleanor não figura entre as primeiras posições do meu ranking mental (porque eu tenho rankings mentais para tudo) de personagens favoritos de todos os tempos, mas entra naquela lista de personagens pelos quais eu estou disposta a brigar para defender.

Talvez por isso eu também vá divergir com relação ao final inacabado, pois não entrarei no coro dos que reclamam dele. Não tenho problemas com finais inacabados. Eu não leio livros pelas histórias, leio pelos personagens e, por mais que queira as respostas, se os meus favoritos terminarem de forma coerente com o que foi apresentado ao longo da história, consigo seguir a vida normalmente com alguns pontos de interrogação. Para mim, apesar de triste do ponto de vista do casal, o caminho seguido foi, dentro das possibilidades, o melhor para a personagem e quero acreditar que ela ficou em paz com suas decisões.

Eleanor & Park é uma história agridoce, que me deixou tanto com um sorriso no rosto quanto com um nó no estômago. Leia (ou não) por sua conta e risco. E depois venha me contar o que achou ;)

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