Supergirl, Jessica Jones, pessoas normais e pessoas horríveis


Como já comentei por aqui, eu não sou muito fã de histórias de super-heróis. Nunca havia parado para analisar o porquê, mas acho que posso encontrar vários motivos. Primeiro, eu não gosto de histórias de fantasia ou sobrenatural. Outro motivo pode ser a complexidade desses universos e timelines, me parece difícil começar a acompanhar qualquer coisa. São muitos lançamentos - quadrinhos, livros, séries, vários filmes com suas sequências e remakes. Eu acho ótimo que existam tantas opções, considerando o tamanho do público, só não é algo que me atraia.

Porém, conhecendo bem a mim mesma, creio que o principal motivo seja a mera existência dos heróis. Como alguém que ama os underdogs e as pessoas horríveis, o conceito de uma pessoa, humana ou não, com super-poderes me incomoda, porque trata-se, por definição, de alguém superior - e que, em geral, está lutando contra seres do mal, seres inferiores e desprovidos de humanidade.

Em algum momento da minha vida, eu tentei assistir Smallville e não consegui, porque Clark Kent era bonzinho demais pra mim, eu torcia pelos vilões, eu adorava o Lex Luthor, mas sabia que não ia adiantar, que meu personagem favorito era o maior vilão da série e, em histórias de super-heróis, vilões não se redimem. Eu sei que falo muito sobre minha preferência pelas pessoas horríveis, mas é impossível para mim não falar, porque essa é uma parte muito significativa da minha personalidade, de como eu enxergo as coisas e que afeta, ainda que inconscientemente, várias decisões no meu dia-a-dia, incluindo as séries que assistirei.

Porém, com todas as séries de heróis sendo lançadas recentemente, era praticamente impossível não existir pelo menos uma que me interessasse.

Supergirl

Alex Danvers (Chyler Leigh) e Supergirl (Melissa Benoist)
Supergirl me atraiu pela presença de Chyler Leigh; se não me engano, foi pelo Twitter dela que fiquei sabendo da existência da série. Achei curioso que ela fosse interpretar uma personagem chamada Alexandra (a qual eu não consigo chamar de Alex, continua sendo Lexie), irmã da protagonista boazinha-loirinha-chatinha e que estaria envolvida em um acidente de avião no piloto. Quando vi o primeiro trailer, acabei ficando interessada na série como um todo. Parecia ser algo bem leve e simples, bom para quem realmente não entende nada desse universo e nem sabia que o Superman tinha uma prima.

Agora que a série se aproxima do final da temporada e com a promessa de renovação pela emissora, Supergirl confirmou as minhas expectativas. Tenho visto algumas críticas de quem tem mais conhecimento, mas, para mim, está sendo bom. O engraçado é que a protagonista tem muito pouco a ver com isso.

Kara Danvers (Melissa Benoist) é adorável e atrapalhada (apesar dos seus poderes ou, talvez, por causa dele), aquele velho clichê de comédia romântica. E é boazinha demais. Por outro lado, os personagens coadjuvantes são ricos e cheios de nuances.

Kara Danvers e Cat Grant (Calista Flockhart)
Cat Grant, a chefe de Kara que eu imagino ser a favorita da maioria, é a verdadeira Superwoman da série. Ela construiu um império, é a pessoa mais poderosa de National City (e não a mulher mais importante, como faz questão de frisar) e o grande apoio da Supergirl (cuja identidade ela pode ou não saber). É a chefe "bitch" que eu gostaria de ter, aquela pessoa que pode até parecer dura, mas faz com que as pessoas ao redor dela cresçam. É a chefe "bitch" que eu gostaria de ser. Assim como ela, Alex Danvers não tem poderes, mas dentro das limitações de sua humanidade, ajuda a irmã a proteger a cidade. Outro dos meus favoritos é o programador Winn, que tem cara de bom moço e uma história obscura que espero que ainda seja mais explorada. Um dos melhores episódios da temporada foi focado nele.

Também gosto bastante dos vilões e volto ao meu antigo problema de querer ver o desenvolvimento deles. Eu assistiria feliz a uma série focada nesses personagens (por favor, me avisem se já existir), especialmente Livewire, Indigo e Silver Banshee (por favor, preciso de mais Italia Ricci vilã na minha tela, ela nasceu pra isso).

Marvel's Jessica Jones

Jessica Jones e [Kevin] Kilgrave (David Tennant)

Assim como Supergirl, Jessica Jones também me atraiu pelo rosto conhecido de Krysten Ritter, que participou de Gilmore Girls e Os delírios de consumo de Becky Bloom e protagonizou Don't Trust the B---- in Apartment 23.

A essa altura, imagino que praticamente todas as pessoas que utilizam a internet e assistem séries já conhecem a série da Netflix. Todos os 13 episódios da primeira temporada foram lançados em novembro, mas só agora eu terminei, tanto pela minha total incapacidade de fazer maratonas (eu enjoo de episódios no meio e volto dias depois) quanto pelo clima da série. Eu sou medrosa e Jessica Jones talvez seja pesada demais pra mim, o que me deixou em dúvida se devo ou não assistir à segunda temporada, já confirmada.

Por outro lado, há algo que me atrai para a ela: A humanidade dos personagens. A série parece gritar o tempo todo o quanto todos nós somos pessoas horríveis, independentemente de sermos vilões ou mocinhos em uma história específica.

A única exceção é o vilão Kilgrave que, apesar de ter tido algumas poucas oportunidades de humanização, continuou sendo retratado como a própria encarnação do mal. Isso foi um grande problema pra mim. Sempre que um personagem for demonizado dessa forma, a minha tendência natural será defendê-lo e eu realmente odeio quando alguém é apresentado de forma tão indefensável. Nos episódios iniciais, a construção do personagem foi excelente e eu queria muito que seu desenvolvimento tivesse se mantido constante até o final. (Na minha versão da história, ele ficaria bom e ajudaria a Jessica a resolver crimes, um universo alternativo com o qual os roteiristas chegaram a brincar.)

Jessica Jones e Patricia [Trish] Walker (Rachael Taylor)
Como era de se esperar, embora [ainda] não tenha entrado para a galeria de protagonistas que eu não suporto, Jessica é uma das que eu menos gosto. Minha favorita é Trish Walker e pelo mesmo motivo que me faz gostar de Alex Danvers em Supergirl (coincidentemente, ambas as atrizes são sobreviventes de Shondaland, que aparentemente escaparam da maldição de nunca mais conseguir fazer sucesso). Trish foi a personagem com quem eu mais me identifiquei, especialmente pela sua lealdade a Jessica, por ela estar sempre disposta a fazer tudo pela amiga, mesmo correndo grandes riscos no caminho. Já li alguns spoilers sobre a personagem e estou na esperança de que, algum dia, ela ganhe a sua própria série. Quem já ganhou foi Luke Cage, outro personagem de quem eu gostei muito, mas não sei se terei coragem de assistir. Talvez, até a estréia eu já tenha superado toda a violência.

Pessoas especiais, pessoas normais, pessoas horríveis

Eu nunca fui muito fã de histórias de super-heróis, mas, às vezes é bom sair um pouco da nossa zona de conforto e arriscar. Supergirl e Jessica Jones foram minhas apostas e não apenas não me arrependi como até fiquei com vontade de experimentar outras séries parecidas - no caso, Flash, graças à parceria do fofíssimo Barry Allen com a menina Kara, e Daredevil, graças a presença da enfermeira Claire ajudando Jessica a cuidar de Luke na season finale.

Porém, como deve ter dado para perceber, o melhor dessa experiência foram as pessoas reais e, como sempre, sua humanidade.

Há um episódio de Supergirl em que a heroína é salva pelos bombeiros; em outro, o vilão Maxwell Lord a ajuda. O primeiro caso, a princípio, soou estranho, mas, quando parei para pensar, é maravilhoso e uma lição ótima, porque não importa o quão poderosa uma pessoa seja, ela nunca será autossuficiente. Já o segundo mostra que toda pessoa horrível pode ter um lado bom, pode sentir empatia. É isso o que eu acho mais importante e espero que as ficções - não apenas essas - continuem mostrando.

Quanto às duas séries: Assistam e me contem se gostaram ;)

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