Tamanho 52 é gorda, sim


Eu sempre gostei muito de futebol. Comecei a jogar futsal na escola, quando estava na quarta série. Os meninos eram divididos pelo tamanho, sendo que um grupo ficava na quadra da escola e o outro ia para outra quadra na vizinhança. Só que o grupo dos meninos grandes não formava dois times, então a professora completava com as meninas que não queriam jogar vôlei - porque nós também não éramos em quantidade suficiente para jogarmos sozinhas. Alguns anos depois, na sétima série, se me lembro bem, finalmente consegui estar em uma turma que ia participar do campeonato da escola. Nunca fiz um gol, mas eu era boa na zaga. Ficamos em terceiro lugar.

Já no CEFET, escola onde fiz o Ensino Médio, ninguém podia escolher o que queria fazer nas aulas de Educação Física, nós fazíamos de tudo. Minhas lembranças incluem futebol de campo, futebol de salão, vôlei, basquete, handebol, corrida, salto, arremesso de peso, luta e dança do ventre. Porém, o meu segundo ano era ano do campeonato bienal de futsal e minha turma montou um time. Eu me inscrevi e quis jogar na minha antiga posição, a posição em que eu sabia jogar, mas havia um problema: Todos os jogadores de linha precisavam usar shorts e eu não usava shorts. Eu só poderia jogar de calça comprida se jogasse no gol. Aceitei e perdemos o primeiro jogo por 12 a 0. Perdemos o segundo jogo por 5 a 2, sendo que fui substituída no meio do primeiro tempo - pela reserva que também só tinha aceitado a posição para poder jogar de calça comprida.

Toda essa história, incluindo outros detalhes que não são importantes no momento, ainda é uma piada interna na turma, e eu me peguei pensando nela há alguns dias. Era uma sexta-feira e eu tinha acabado de chegar do centro de BH, em um calor que me fez questionar se não era o segundo sol chegando. Cheguei com 40 minutos para preparar algo e comer, antes do horário que marcara no salão. A primeira coisa que fiz foi tirar os jeans e colocar um short que, normalmente, só uso para ficar em casa. Eu não uso shorts na rua, a menos que esteja indo para a praia. No máximo, uma bermuda. Mas... Eu mencionei que estava MUITO QUENTE? Eu não sou de sentir calor, não sei o que aconteceu esse dia, mas a última coisa que eu queria fazer era entrar novamente em uma calça comprida. Para complicar, eu não me depilava já havia algumas semanas, já que a única coisa que fiz no mês pré-férias foi trabalhar em um ar-condicionado maldito.
Mais tarde, depois de cortar os cabelos, retocar a progressiva, tomar um suco delicioso de morango com maracujá, marcar uma aula experimental de pilates e comprar uma bermuda estampada horrorosa pra isso, eu estava voltando para casa e ri sozinha ao me lembrar da história do futebol.

Embora, assim como minha amiga reserva, eu tenha alegado motivos religiosos para me recusar a usar os shorts, o real motivo era que eu tinha vergonha do meu corpo. Eu era a garota gordinha, minhas pernas eram muito grossas e muito brancas. A parte engraçada? Elas continuam sendo, só que agora eu visto 10 números acima do que vestia naquela época.


Eu nunca fui uma pessoa magra. Durante toda a minha vida, eu alternava entre tentar emagrecer e ser um molequinho que não se importava com a aparência.

Não me arrependo e nem me envergonho dos momentos em que fui um molequinho porque eu queria ser. Embora tenha ficado mais raro com o passar do tempo, ainda há momentos em que eu realmente não estou com a menor vontade de me arrumar. Recentemente, passei cerca de um mês sem pintar as unhas das mãos, algo que normalmente eu adoro fazer (e já voltei). E eu acho que fui a última das minhas amigas a começar a usar maquiagem (decisão da qual eu também não me arrependo, pois cada um tem - ou não tem - a sua hora, e não existe hora errado).

Entretanto, independente de estar na fase de não me importar ou na fase de querer emagrecer, no fundo, no meu subconsciente, sempre esteve presente a ideia de que eu não poderia ser bonita e atraente se não estivesse mais magra do que naquele momento.


Não me lembro exatamente quando eu deixei de ser a pessoa que se conforma em não ser bonita e passei a ser a pessoa que chega no trabalho e tira foto no espelho pra postar look do dia no Instagram. Talvez, tenha começado quando eu cortei os cabelos, há três anos; talvez tenha sido a convivência com o Felipe e a Annie, que acordam já se achando maravilhosos, ou com coleguinhas - homens e mulheres - que gostam de elogiar. Provavelmente, tem a ver com a decisão de me permitir ser mais vulnerável diante das pessoas e com o fato de eu ter aprendido qual era, de fato, a autoestima de que eu precisava - sinto que aprendi muita coisa nesses últimos dois anos.

O que eu sei com certeza é que eu estou muito melhor agora.

Um dia depois de exibir as pernas peludas pelo bairro, fui ao aniversário de uma prima, onde encontrei quase toda a família da minha mãe, pessoas que eu vejo apenas uma ou duas vezes por ano. Alguns, eu não via desde o Natal; outros, desde o casamento dessa mesma prima em julho. A mãe dela - que, apesar de não ter o meu sangue, sempre foi minha tia favorita - comentou que havia alguma coisa diferente em mim, mas ela não sabia dizer o que era, e terminou por perguntar se eu estava apaixonada.

Uma foto publicada por Cíntia Mara (@cintiamcr) em

É irônico pensar que várias vezes eu quis mudar para agradar aos outros, sendo que tudo o que eu precisava era querer ficar bem pra mim. Não pensar em entrar em vestir o tamanho de roupa que alguém acha que eu deveria, mas vestir roupas nas quais eu me sinto confortável. Não comer ou me exercitar para ver os números diminuindo na balança, mas para me sentir bem.

Não quero subir em um pedestal e dizer que sou um ser humano mais evoluído que qualquer outro por isso, mas hoje, eu vejo pessoas saudáveis e muito mais magras que eu deixando de fazer o que lhes dá prazer e usando adjetivos pejorativos para se referir a si próprias e penso em como é bom não passar por isso, não ser tão dura comigo mesma e apenas ser feliz.

E não que ninguém deva querer perder peso ou seja obrigado a querer continuar para sempre onde está. Eu apenas gostaria que todos soubessem que a beleza não está nos números - embora eu, Garota de Exatas™ os ame - mas em um conjunto de fatores que depende muito do seu estado de espírito e da sua disposição.

Você não precisa ser magro(a) para ser feliz ou para se sentir bonito. Você só precisa decidir que é isso o que você quer, que você quer agora e que você está disposto(a) a se dar uma chance.

Para terminar, fiquem com essa TEDx Talk maravilhosa da modelo Ashley Graham (e aguardem, pois esta não será a última vez que este assunto aparecerá por aqui):

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