A arte de resolver problemas

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Na semana passada, eu fiz um curso de dois dias, junto com uma colega também analista de negócios e três dos nossos superiores. Foram dois dias cansativos, mas também muito proveitosos, pois o assunto abordado é importante e pode trazer boas mudanças tanto para a empresa em que trabalho e para os nossos clientes, quanto para mim pessoalmente. Era um curso voltado para quem trabalha com projetos de software, mas o que mais me chamou a atenção foi que a abordagem utilizada focou em algo que vai além de uma indústria e pode ser aplicado em qualquer área, pessoal ou profissional: a resolução de problemas.

Esse é um assunto que me interessa muito, porque eu realmente adoro resolver problemas. Está ali na "mini bio" da minha barra lateral: Problem solver. Ver problemas sendo resolvidos me dá uma sensação de dever cumprido, de estar fazendo uma diferença positiva, de satisfação. Talvez por isso eu goste tanto de Física e esteja tão satisfeita por ter escolhido uma carreira na área de computação - ambas são ciências que resolvem problemas.

Já havia algum tempo que eu vinha pensando em escrever sobre isso para o blog. Por coincidência, não consegui seguir com o post que havia planejado para hoje e este era o próximo da lista.

A arte de resolver problemas

Eu não sou nenhuma especialista em resolver problemas. Na verdade, eu nem acho que tal denominação deva existir, porque problem solving não exige nenhuma habilidade especial - você só precisa de calma e persistência.

Passei a prestar atenção nisso na época em que participei mais ativamente dos grupos da igreja onde eu congregava. Ao contrário dos círculos em que eu estava inserida na faculdade ou no trabalho, esses grupos eram muito heterogêneos - de crianças a idosos, de graduados a analfabetos, de quem faz acontecer a quem espera sentado. Uma situação, em especial, me marcou.

Certa vez, por volta de 2009, quando eu fazia parte do coral, nós íamos apresentar uma música no playback. Isso não era comum, a maioria das apresentações eram à capela, então, normalmente, nossa única preocupação era mesmo a voz. Como de costume, ensaiamos várias vezes, com o CD acompanhando, e decidimos ensaiar uma última vez, cerca de uma hora antes de apresentar. Nesse momento, a música começou a pular e descobrimos que o CD estava arranhado. O restante dele permanecia intacto (incluindo a versão cantada da mesma música), mas não tinha mais jeito de usá-lo para o que precisávamos e era domingo à noite, não dava para sair e comprar outro. Algumas pessoas ficaram nervosas com a possibilidade de cantar aquela música sem o acompanhamento, a líder do grupo queria cancelar tudo. Eu me lembro de observar tudo aquilo intrigada, porque, pra mim, a solução era óbvia - tão óbvia que eu temi ser estúpida. Mesmo assim, chamei a atenção da líder e sugeri: "Nós temos a versão cantada da música, por que não a utilizamos e cantamos por cima?" Ela achou a ideia genial, me agradeceu, me encheu de elogios, enquanto eu continuava achando óbvio - ainda hoje, continuo achando que não teve nada de especial.

Isso foi mais ou menos na mesma época em que eu comecei a ler sobre a Teoria dos 4 Temperamentos e li que coléricos, em geral, são bons resolvedores de problema. Nos anos seguintes, eu acabei passando por uma fase complicada na minha vida profissional que, ironicamente, terminou quando fui demitida do meu antigo trabalho. Só recentemente voltei a pensar em tudo o que havia deixado pra trás e recuperei o meu interesse em resolver o problema da resolução de problemas. Como as melhores respostas aparecem nos momentos mais inesperados, eu estava no ônibus quando consegui visualizar esses 5 passos

1. Identifique o problema


Para resolver um problema, você precisa saber que ele existe. Óbvio, certo? Mas, na maioria das vezes, são tantas informações chegando o tempo inteiro, que a gente não consegue enxergar o que precisa ser resolvido. Isso acontece muito com a minha mãe.

Minha mãe é péssima para se comunicar. A maior parte do meu tempo em casa é passada na sala e com fones nos ouvidos, seja estudando, vendo séries ou ouvindo música. Ela tem mania de falar alguma coisa da cozinha e esperar que eu responda, só que, quando eu percebo que preciso tirar os fones, ela já falou a metade. Aí eu peço para repetir, e ela diz alguma coisa que não faz sentido nenhum para quem não ouviu o início. Já tem algum tempo que eu e minhas irmãs estamos tentando ensiná-la a falar de forma mais objetiva, a pensar na mensagem que ela quer transmitir, em vez de ficar divagando.

Se ela aprendeu? Não. Mas eu aprendi. Aprendi a identificar o que é importante.

Na escola, nós aprendemos que para resolver um problema de Física, não basta ter as fórmulas, é preciso saber onde e com que variáveis utilizá-las. Lembro que as provas mais difíceis que fiz no CEFET e na faculdade foram aquelas que já vinham com o formulário. Identificar o problema é eliminar tudo o que não é importante.

Como no caso da apresentação do coral. O problema a ser resolvido com urgência não era o CD arranhado, mas a impossibilidade de cantar.

Você só pode encontrar soluções para um problema que é conhecido.

2. Identifique soluções


Esta é a parte mais difícil. Se fosse fácil, não existiria problema nenhum.

Uma vez, alguém - não me lembro quem, quando ou por que - me contou sobre o "Método McDonalds" para encontrar soluções. Também não me lembro se era esse o nome certo, só me lembro da parte importante: Se, algum dia, você estiver em um grupo de pessoas decidindo juntas onde almoçar, sugira McDonalds.

Talvez eu tenha gostado tanto desse "método" justamente porque eu odeio McDonalds. Não odeio por questões morais, porque tenho pena dos animaizinhos que eles matam ou porque não é saudável, eu odeio porque acho ruim. A menos que seja uma situação extrema, essa nunca é uma opção para mim. Então, por que razão eu iria sugerir almoçar no McDonalds? Simples! Para nivelar por baixo.

Sempre que houver um grupo de pessoas brainstorming sobre um problema qualquer - seja o almoço ou a paz mundial - é muito provável que alguém tenha uma boa ideia e fique com vergonha de falar. Ao oferecer propositalmente uma opção ruim, os demais percebem que suas ideias não são as piores e começam a apresentá-las.

O melhor de tudo é que isso também funciona quando você está trabalhando sozinho. Não sei se é todo mundo assim, mas eu, às vezes, censuro os meus próprios pensamentos.

Permita-se ter ideias idiotas. Abra o seu leque de possíveis soluções. Obviamente, nem todas serão boas, mas você não precisa que todas sejam, só precisa que as ruins abram caminho para a melhor.

3. Avalie as soluções


Há muito tempo (praticamente, desde que me formei na faculdade, há quase 7 anos), eu venho procurando cursos de pós-graduação. Já estudei muita coisa, mas acabei não fazendo nenhum. Depois que terminei o curso, na última terça, eu fiz a prova final de certificação e voltei a pesquisar opções de pós. Na sexta, acabei me inscrevendo em uma especialização no Coursera e comecei a assistir os vídeos no mesmo dia. Logo no início, o instrutor fala sobre a necessidade de abrir o leque de soluções para depois fechá-lo novamente.

Separe o joio do trigo.

Algumas opções são fáceis de descartar; outras exigem mais tempo. Algumas vezes, dá pra fazer listas de prós e contras para cada uma delas; outras, não há tempo para isso. Decisões precisam ser tomadas com base no que sabemos naquele momento. Não que uma solução descartada não possa voltar a ser uma opção viável em um momento futuro, mas não adianta se debruçar sobre elas, debulhar o que não vai dar resultado nenhum. Foque no que é viável dentro das condições que você tem.

4. Escolha uma solução


Muita gente vai dizer que essa é a parte mais difícil; para mim, é a mais fácil. Depois que você usou o tempo e as ferramentas disponíveis para avaliar todas as opções possíveis, a escolha deveria, sim, ser simples. Só que nós gostamos de complicar as coisas. Às vezes, a melhor solução não é a que nós queremos. Eu gosto de tomar decisões baseadas na lógica e não nos sentimentos, porque os sentimentos mudam. Quase todas as vezes que fico indecisa, é porque estou deixando a lógica de lado e tentando escolher com base nos sentimentos.

5. Aprenda


O mais legal de tudo isso é que a gente pode (e deve) estar sempre aprendendo. Aprender a identificar problemas, a gerar soluções, a permitir que os outros exponham suas ideias idiotas, a analisar, a escolher.

Escolheu errado? Faça diferente da próxima vez. Há casos em que um simples erro pode ter circunstâncias graves, mas, a menos que haja uma vida literalmente dependendo de uma decisão, as chances são de que você possa, sim, tentar de novo e fazer certo.

Eu recomendo

Todo mundo já sabe que eu adoro TED Talks, então, deixo aqui algumas que falam sobre resolução de problemas. Todas estão em inglês, mas possuem legendas em português. Gostei muito de todas. A primeira é bem específica para professores e quem trabalha com crianças, mas as outras três são bem abrangentes.

Quem tiver algo a acrescentar ou algum outro link para recomendar, deixe nos comentários, vou adorar saber.

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