A menina que não gostava de maquiagem


Durante a adolescência, participei por alguns anos do grupo de coreografia da igreja que frequentava. Se gosto de dançar ou danço bem? Não, mas vamos ignorar esse detalhe e seguir em frente. Nós ensaiávamos várias horas por semana e tínhamos apresentações importantes a cada dois ou três meses. Houve uma época em que nós íamos com frequência a outras igrejas, convivíamos com garotas de outros grupos, era uma atividade da qual eu gostava muito. Nos dias de apresentação, nós vestíamos roupas bonitas - tanto as de dança quanto as nossas, que usaríamos depois de dançar - arrumávamos os cabelos e sempre havia alguém que levava maquiagem.

Eu era a mais velha do grupo, a que mais tinha (tem) espinhas e a única que não sabia se maquiar. Minhas irmãs, três e cinco anos mais novas, aprenderam muito antes de mim. Gostava de batom, mas não muito mais que isso. Não usava nada nos olhos, porque temia que eles ficassem irritados (mais tarde, descobri ter conjuntivite alérgica) e era totalmente contra a ideia de precisar esconder a minha pele.

Minhas amigas tentavam me convencer a todo custo. Às vezes, eu até deixava, quando os líderes do grupo mandavam, mas nunca fiquei muito contente e elas sempre souberam disso. Quanto mais alguém tenta me convencer de algo, maiores as chances de eu acabar tomando antipatia daquilo. Inclusive, eu me lembro de uma discussão séria que tive uma amiga em 2006, quando eu já não era adolescente e nem estava mais no grupo de dança. Nessa época, eu cantava - isso, sim, algo de que gostava e que fazia bem - e nós íamos cantar no lançamento de um DVD. Ela usava muita maquiagem; eu, só batom. Nós brigávamos o tempo inteiro, mas essa discussão, em particular, me marcou, porque eu disse que só usaria maquiagem quando tivesse 50 anos e estivesse cheia de rugas - e eu realmente odeio não cumprir com a minha palavra.

(Depois de três parágrafos contando sobre algo que ocorreu há mais de dez anos, alguém pode estar se perguntando o porquê disso. Como sempre, eu não sei explicar. Vocês já devem ter percebido que eu sou péssima para explicar qualquer coisa que não possa ser explicada usando algoritmos, fórmulas ou números, certo? Acontece que, no final do ano passado, uma leitora sugeriu no Twitter que eu escrevesse sobre dicas de beleza, produtos etc e, na minha cabeça, essa história teria que vir entre a trilogia da vulnerabilidade/autoestima/aceitação e qualquer outra coisa que eu queira falar sobre o assunto.)

Uma foto publicada por Cíntia Mara (@cintiamcr) em

Tem mais ou menos dois anos que eu comecei a me importar mais com essas coisas. Gastei um pouco mais de dinheiro do que gostaria, passei tempo vendo tutoriais no Youtube, experimentei. Foi quando eu descobri que eu gosto, sim, de tudo aquilo. Não gosto a ponto de querer comprar todos os lançamentos ou virar blogueira de beleza, mas a ponto de conseguir sentir prazer em me levantar alguns minutos mais cedo para me arrumar antes de ir para o trabalho (esses minutos, inclusive, foram diminuindo à medida em que eu peguei prática, agora já dá pra fazer algo decente em cinco minutos).

Tudo isso fez parte do processo de aprender a me aceitar, e me amar e estar bem na minha própria pele. Descobri que a quantidade de maquiagem no meu rosto não define quem eu sou ou o meu valor comparado ao de outras pessoas (aliás, seria bom se aprendêssemos de uma vez por outra que ninguém é melhor que ninguém, né?). Que eu posso sair usando nada além de um protetor solar, mas também posso passar batom pra ficar em casa sozinha, só porque deu vontade. Aprendi que não preciso me envergonhar de ter os cílios longos, volumosos e curvados que a maioria das mulheres busca - pelo contrário, está tudo bem se eu quiser usar um rímel poderoso em plena segunda-feira sem nenhum motivo específico. Que ninguém tem nada a ver com a minha vida se eu for trabalhar de batom vermelho (a não ser que isso influenciasse alguma coisa no meu trabalho, o que não é o caso). E que também não é da minha conta se a coleguinha usa um quilo de base ou nem lava o rosto.

São coisas pequenas que a gente vai percebendo, preconceitos dos quais vai se desfazendo, e a bagagem do dia-a-dia vai ficando mais leve de carregar. Faz bem pra pele.


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