O prazer do prazer sem culpa


Tudo começou com a Pick me up Playlist da Annie. Quando ela mandou o link, eu ainda não tinha terminado de organizar as minhas próprias playlists no Spotify, então, eu a ouvia com certa frequência. Tinha algumas músicas pop modernas, dessas boas para dançar fazendo o celular de microfone, várias antigas quase clássicas, algumas músicas cristãs, várias da Britt. No meio delas, algumas músicas me faziam ativar o modo "privado" do player.


Para quem não conhece, o Spotify possui uma espécie de feed, onde os seus amigos podem ver o que você está ouvindo, seja no próprio player ou no Facebook, caso os dois sistemas estejam conectados. Porém, ele também oferece o modo privado, para quando você não quer que ninguém veja. Não que haja alguém me vigiando o tempo todo para ver o que eu ouço, imagino que a maioria das pessoas tenha mais o que fazer, mas eu costumo utilizá-lo quando estou escrevendo os posts de música, já que faço isso ouvindo as playlists em questão.

E eu também usava o modo privado para as guilty pleasures - especialmente as da playlist da Annie, que eu não podia tirar de lá. Tenho quase certeza que lá tinha duas músicas da Ivete Sangalo - A |Lua Que Eu Te Dei e Quando a Chuva Passar - que me levou à grande epifania que deu origem a esse post, mas agora não consigo mais encontrá-las (e, convenhamos, nenhuma das duas faz o estilo pick me up), então, posso estar enganada, elas podem ter chegado a mim de outra forma. O fato é que eu ouvi as duas e me lembrei de outras que eu gostava.

Pausa. Voltemos ao período entre 1995 e 1999.

Quando eu estava naquele período indefinido da pré-adolescência, eu adorava pagode e axé. Eu praticamente só ouvia pagode e axé. As festas de família se resumiam a dançar É o Tchan com as primas. E a Banda Eva que, na época, tinha Ivete como vocalista, era uma das minhas favoritas. Depois, passei por alguns anos (pessoalmente necessários, devo dizer) em que eu só ouvia músicas cristãs e, quando saí deles, eu já era uma jovem adulta entrando no mercado de trabalho.

Nesse meio tempo, eu aprendi que pessoas inteligentes ouviam rock, mpb e jazz. Ritmos populares - pagode, axé, funk, sertanejo - eram coisa de gente inferior, que eu deveria me envergonhar se gostasse.

De volta a 2016.

Ouvir Ivete me levou diretamente àquele tempo em que eu não me importava se ninguém mais gostasse das mesmas coisas que eu. Comecei a navegar pelo Spotify e encontrei Beleza Rara. que eu adorava. Adicionei a uma playlist secreta de guilty pleasures, na companhia de, entre outras, Wannabe, Quit playing games [with my heart] e [Hit me baby] one more time. Também adicionei Eva e algumas do Só pra Contrariar. Gente, eu adorava SPC. É ruim? É. Algumas letras são breguíssimas. Mas ninguém precisava ficar sabendo que eu ouvia aquilo.

Todas essas músicas ficaram quietinhas em playlists secretas até o Carnaval. Eu estava no Twitter, quando me dei conta que eu não precisava esconder nada, não precisava fingir que só gostava das coisas "permitidas".

Não me entendam mal, eu realmente amo rock, mpb, jazz, R&B, essas reconhecidamente boas (e sertanejo, especialmente esse universitário que já deveria ter sido jubilado, está no Top 5 de coisas que eu odeio). Mas também não há nada de errado em curtir outras coisas. Esse negócio de guilty pleasure não deveria nem existir. Eu posso gostar de Resgate e de SPC, misturar Spice Girls com Beyoncé, preferir os Backstreet Boys aos Beatles.

E uma coisa mágica acontece quando a gente para de se importar em ser julgado por coisas bobas: A gente também para de julgar. O vizinho que curte funk não é melhor e nem pior que o que passou um fim de semana inteiro na fossa ouvindo Someone like you repetidamente, ou o que toca saxofone nas festas de aniversário. Porque gosto é gosto, só isso, não tem certo ou errado. A não ser que você goste de matar, roubar ou estuprar - nesses casos, é crime, recomendo que pare imediatamente. Mas não é crime gostar de algo que alguém acha ruim.

Existem muitas coisas na vida que fazem com que eu me sinta culpada. Felizmente, ouvir Ivete não é mais uma delas.


CONVERSATION

Back
to top