Do Futebol à TI: Ser mulher em um mundo de homens

Créditos: Ricardo Stuckert/CBF

Dizem que esta Olimpíada é das mulheres. Embora eu ache que essa denominação não faz sentido - seria a Olimpíada das mulheres se as competições fossem mistas e as mulheres ganhassem a maior parte delas - não dá para ignorar que, no Brasil, um grupo de mulheres está ganhando a nossa atenção e conquistando os nossos corações.

Como vocês sabe (e eu vou continuar falando), na última sexta-feira, eu tive o prazer indescritível de ver um jogo da seleção brasileira de futebol feminino no Mineirão. Foi minha terceira vez no estádio, a segunda em um jogo eliminatório que terminou nos pênaltis e a primeira em um jogo do Brasil. Desde que soube que o Mineirão receberia alguns jogos, eu decidi que queria assistir a um do feminino. Na época, várias pessoas estranharam e disseram que futebol feminino não tem graça. Cerca de um ano depois, 52 mil pessoas lotaram o Mineirão e apoiaram nossas jogadoras até o último segundo.

O que mudou? Certamente, ver os jogos acontecendo em nosso país aumentou o interesse brasileiro por vários esportes. E, enquanto isso, a seleção masculina de futebol, mesmo quando goleia, já não empolga tanto, o que também contribuiu para que os amantes do esporte que é a paixão nacional recorressem às meninas - eu mesma não acompanhava futebol desde a Libertadores do ano passado e voltei agora. O que eu tenho certeza que não mudou nesse tempo foram o talento e a garra delas.

Garra que eu vi na capitã Marta, visivelmente cansada, ao parar por um segundo após cada queda, olhar para as companheiras e se levantar novamente. Na goleira Bárbara, que juntou forças quando tudo parecia perdido. Na zagueira Rafaelle, que não aparece nas manchetes, mas estava sempre no lugar certo e na hora certa para facilitar o trabalho da goleira salvadora. Na atacante Andressa Alves, muito marcada, que continuava tentando e tentando novamente. Na experiente Formiga, com uma energia invejável.

Durante o jogo, eu comentei com a Alice, minha amiga que foi ao jogo junto comigo e meu pai, sobre a resistência da Marta ao se levantar sem perder tempo após quedas que me deixavam assustada. Alice respondeu que ela, provavelmente, apanhou muito jogando com os meninos quando era mais nova, o que a deixou resistente. Isso me lembrou de quando eu jogava em times mistos na escola e de todas as vezes que levei boladas na cabeça. Lembrei também que, anos depois, eu entrei para a faculdade de Ciência da Computação na UFMG em uma turma de apenas 5 mulheres para 35 homens. Na mesma época, eu entrei como a zebra em um programa de estágio que contratou 8 alunos da minha turma - 4 homens e 4 mulheres - na empresa onde cresci e trabalhei por quase 10 anos.

Ser mulher em TI é parecido com ser mulher no futebol.

No fim do ano passado, uma empresa de TI fez uma campanha nas redes sociais retratando situações de machismo enfrentadas na área. À época, eu comentei com meus amigos que nunca vivi nada daquilo. Hoje, pensando melhor, eu acredito que devo ter vivido, sim. Só que eu nunca vi. Eu não tinha tempo para me preocupar com isso, porque eu estava focada demais em terminar minha faculdade, em melhorar minha posição na empresa, em entregar os projetos com qualidade e no tempo certo. A única vez que eu senti o machismo foi quando uma pessoa - um homem - me chamou para contar que tinha percebido e tentar me ajudar a resolver. E o que aconteceu foi que eu fiquei com tanta raiva que acabei perdendo o foco, que só retornou quando o meu chefe - também homem - me assegurou que sabia da minha capacidade e que eu conseguiria fazer tudo dar certo.

Nas entrevistas das jogadoras convocadas para a seleção olímpica, eu não as vejo reclamando da falta de apoio que recebem em comparação com a equipe masculina; elas acreditam no apoio da torcida e, como bem disse a atacante Bia Zaneratto, elas estão lá conscientes da importância de fazer a parte delas para que esse apoio venha. Marta, por sua vez, deixa para a torcida as comparações com Neymar, pois ela mesma sabe que isso não a levará a lugar algum.

De forma semelhante, a judoca Rafaela Silva - não apenas mulher, mas pobre, negra e homossexual - respondeu ao preconceito sofrido após eliminação em Londres com o nosso primeiro e, até agora, único ouro.

Ser mulher em uma profissão dominada por homens é ter garra. Ser mulher em uma profissão dominada por homens é ser persistente. Ser mulher em uma profissão dominada por homens é nunca desistir.

Ser mulher em uma profissão dominada por homens é, também, fazer deles seus parceiros. Posso estar enganada, mas me parece que a maior parte dos treinadores das equipes brasileiras - femininas e masculinas - é composta por homens. Em alguns esportes onde a participação das mulheres é mais bem aceita, como no vôlei ou na ginástica, isso me causa certo estranhamento, pois tenho certeza que existem mulheres qualificadas o bastante para a posição. No futebol, porém, é diferente. Daqui a alguns anos, talvez tenhamos (torço por isso!) Marta, Cristiane e Formiga como técnicas de seleção ou de times, mas agora é possível que elas ficassem esperando para sempre se não tivessem um homem em quem se apoiar. Vi, inclusive, uma imagem muito bonita do técnico Vadão abraçando a Cristiane, que não jogou, após a partida contra a Austrália (não consegui encontrar a imagem, se alguém souber, por favor, deixe o link nos comentários).

Da mesma forma, durante toda a minha carreira, eu sempre tive colegas homens ao meu lado. Tive muitas mulheres também, claro, mas, como nós já estamos em minoria, nem sempre foi possível. Na TI, a predominância masculina é mais forte nas funções mais técnicas, como programação e suporte, enquanto nós temos mais espaço nas áreas de negócios (que é a minha), testes, design e gestão. Hoje e na maior parte dos últimos doze anos, eu tenho uma chefe mulher. Mas foram homens que me ensinaram a programar, quase sempre são homens que dão o suporte que eu preciso da equipe técnica. E não tem competição desigual! Ou, como disse antes, se tiver, eu não vou perceber, porque eu não tenho tempo pra prestar atenção no que os outros estão tentando fazer contra mim. Eu vou gastar meu tempo fazendo um bom trabalho e ajudando a formar novos profissionais (sejam homens ou mulheres, porque, se eu quero mostrar para o mundo que o gênero não faz um profissional melhor ou pior, eu mesma não posso discriminar ninguém) que vão fazer o mesmo lá na frente.

E é assim que nós precisamos lutar contra as desigualdades. Hoje, eu não preciso mais me provar, mas, se precisasse, eu o faria, todos os dias, mostrando que sou capaz, até que acreditassem em mim. Marta tem a minha idade e levou 10 anos para lotar um dos maiores estádios do país, mais tempo que a carreira de muito jogador. Mas ela não fez isso sentada, reclamando e se revoltando com tudo, ela fez isso trabalhando, merecendo cada uma das 5 bolas de ouro que ganhou.

Se ela consegue, todas nós conseguimos.

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