O dia em que eu desisti de emagrecer


Desistir soa sempre como algo ruim. Nós aconselhamos uns aos outros a fazer justamente o contrário: persista, vá em frente, você vai conseguir. Nós nos culpamos quando não queremos mais perseguir algo. É normal. Eu mesma detesto ter que voltar atrás. E desistir, muitas vezes, é ruim mesmo. Mas nem sempre.

Nas últimas semanas, tive uma experiência muito interessante e que, de certa forma, resultou neste post. Passei mais de um mês tentando ler um livro e mal saindo do lugar - cheguei apenas à página 115, de suas 368. Foi mais tempo do que eu levei, em 2012, para ler as 788 de Os Três Mosqueteiros. Mas eu não queria desistir, porque já desistira de vários livros nos últimos três anos e eu estava realmente cansada disso. Como sempre, estava me culpando pelos fracassos literários que tivera. Até que não aguentei mais. No dia 6 de setembro, eu simplesmente peguei outro título na estante, terminei na mesma semana e já li outros dois depois dele. Desistir foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. E eu sempre fui a favor disso. Eu dou bronca nas minhas amigas quando elas insistem em histórias ruins, porque a vida é muito curta para perder tempo com algo que não lhe dá o prazer que deveria.

Porém, nem sempre é fácil fazer o que nós mesmos pregamos.

Em Abril do ano passado, fui convencida pela minha chefe a visitar um lugar que eu resistia havia muito tempo e experimentar um produto que prometia substituir refeições. Não direi o nome do produto, mas qualquer um que tenha um grama além do considerado normal já deve ter sido convidado. Eu e meus colegas de trabalho apelidamos aquele local de Seita, pois as pessoas resistem, mas depois acabam sendo sugadas e acabam virando evangelistas do produto como estilo de vida.

Não julgo quem gosta, embora me irrite muito com a insistência de que você também concorde que aquilo é a solução para a vida, o universo e tudo o mais.

Enfim, eu fui. Por uma semana, tomei chás sem gosto e uma bebida doce no lugar do almoço. Não foi fácil. Eu adoro doce, mas só consigo comer depois de ter comigo algo salgado. Depois de uma semana, me deixaram comprar o produto e tomar em casa, pois as refeições que eu queria substituir eram o café da manhã e o jantar. Meu maior objetivo era melhorar a minha alimentação como um todo e, como sempre tive muita fome à noite, pensava que aquilo pudesse me ajudar. Por mais ou menos três meses, eu tomei aquela bebida e visitei aquele lugar periodicamente para me pesar e tirar medidas.

O primeiro mês trouxe resultados animadores e as pessoas ficavam felizes por mim. Eu não estava com a melhor disposição do mundo, mas estava em um esforço deliberado para ser mais aberta, então resisti ao máximo. Não queria desistir. Queria ser uma pessoa normal, que gosta de atenção. Fingi não querer comer um quilo de chocolate a cada vez que me pesava com o único propósito de provar que ninguém manda em mim.

Um dia, eu fui lá para adquirir uma nova lata do produto e dizer às pessoas que não iria mais me pesar, que eu não funciono com esse tipo de cobrança. Ao contrário do que eu esperava, elas aceitaram sem problemas. Também perguntaram se eu estava me alimentando bem e, ao responder, comentei, casualmente, sobre o preço do cacho de uvas que comprara no dia anterior. Frutas fazem bem para a saúde, certo? Aparentemente, uvas não eram boas o bastante para aquela dieta, pois fui delicadamente censurada e alertada para o fato de que frutas possuem muito açúcar e eu deveria evitá-las. Nem mesmo o abacaxi, minha favorita de todas as frutas, estava totalmente liberado.

Nunca fui muito boa em Biologia, mas desconfiei que havia algo errado. Desconfiei que eu estava no lugar errado. Quis sair dali correndo, mas ainda tive que enfrentar um senhor dizendo que eu precisava fazer exercícios físicos mais pesados, que gostar de andar era coisa de velho. Nenhum deles fez por mal, eu sei. Eles estavam apenas repetindo o que acreditavam ser a receita do sucesso. Só não era o meu lugar. E eu desisti.

Naquele dia, eu desisti de emagrecer. Eu percebi que não estava fazendo aquilo porque eu queria, mas porque alguma regra não dita dizia que eu precisava daquilo.

Eu desisti e desistir foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado naquele momento, porque, ao parar de perseguir os objetivos dos outros, eu passei a focar nos meus. Sem a pressão de comer as coisas certas nas horas certas, eu passei a me alimentar muito melhor. Eu como salada quase todos os dias da semana, mas não vou deixar de desfrutar uma pizza ou uma sobremesa se me der vontade. Eu ando e subo escadas o quanto quero, mas não me sinto culpada se decidir pegar um ônibus para não derreter em um dia muito quente. Eu uso roupas que me servem e me sinto bem com elas.

Talvez, um dia, eu acabe emagrecendo, voluntária ou involuntariamente. Talvez não. Mas tudo bem, de qualquer forma. Pois, agora, o que quer que eu faça, é por mim, é para buscar o meu lugar e me transformar na melhor versão de mim mesma que eu posso ser a cada momento.

Desista você também. Desista de ser o que os outros esperam e descubra quem você realmente é.

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