Não há problema em ser mediano


Sempre fui boa na maioria das coisas que quis fazer. Em minha família, eu costumava ser A Garota Inteligente, lembram? A que aprendeu a escrever cedo, a que lia coisas de adulto, a que sabia mexer nos eletrônicos. Meus pais não terminaram nem o Ensino Fundamental, então, para eles, ter uma filha inteligente era uma grande conquista. E não que minhas irmãs sejam burras, porque elas não são. Mas eu sou a mais velha, eu fui a primeira entre os primos, era para mim que todos os olhares tinham se voltado. Ninguém depositava expectativas em cima de mim, porque era eu que definia as expectativas que seriam colocadas sobre os mais novos. Eu era a melhor.

Na escola, era a melhor da classe, com poucos colegas cujas notas se aproximavam das minhas. Consegui bolsa de estudos para o cursinho pré-CEFET, ganhei presentes por tirar a melhor nota nos simulados, passei na prova em oitavo lugar. Três anos depois, passei no vestibular da UFMG sem fazer cursinho. Fiz dois anos do curso de Ciência da Computação (além dos dois que já havia feito de Informática Industrial) sem ter um computador em casa, aprendi a programar no papel e meus códigos funcionavam. Fui a única aluna que trabalhou - trabalho de verdade, não era estágio - durante todo o período da faculdade.

Não estou aqui para dizer que minha vida era difícil por ser boa ou qualquer coisa parecida. Não era. Minha vida era difícil porque eu precisava atravessar 13 quilômetros de ônibus na hora do almoço pra chegar na faculdade e porque passava os sábados na lan-house fazendo os trabalhos, mas tirar nota máxima em uma prova mítica que o professor de Matemática Discreta dava na primeira semana de aula não dificultou em nada. Tampouco quero me exibir e dizer que sou melhor que todo mundo. Pelo contrário: quero contar sobre como a vida me mostrou que não sou.

Foi no meu segundo ano de faculdade, quando repeti três matérias. No terceiro, quando percebi que não conseguiria me formar nos quatro anos previstos. E no quarto, quando tentei tirar carteira de motorista e fui reprovada duas vezes na prova prática

A primeira reprovação foi um dos acontecimentos que mais me abalaram na vida. Eu tinha tanta certeza da aprovação, que pequei pelo excesso de confiança. Aquele dia marcou o meu primeiro fracasso. Apesar das disciplinas que eu tive que repetir na faculdade, a falha no exame de direção foi o primeiro que me atingiu. Até ali, eu tinha conseguido tudo o que queria com meus próprios méritos, eu não sabia que podia falhar.

Isso foi em 2008. Fiz duas provas, reprovei duas vezes, meu processo venceu e nunca mais voltei. Não por algum trauma, nada disso, apenas uma mudança de planos, sobre a qual falarei algum dia.

Há alguns meses, eu me peguei pensando e remoendo tudo isso várias vezes. Precisamente, foi quando a Beyoncé lançou o Lemonade e eu vi alguém comentando no Twitter sobre uma frase específica.

Who the fuck do you think I is?
You ain't married to no average bitch boy

Em todos os lugares, pessoas comentavam sobre uma possível traição de seu marido, Jay Z, e usavam a música para reforçar que ela não é "nenhuma vadia mediana" e isso me incomodou, porque as conversas tinham um tom de menosprezo aos medianos. Sim, eu sei, eles estavam falando da Beyoncé e ela é 104% perfeita - ao menos, no que nós a vemos fazer, pois sempre é possível que ela não saiba fazer divisão com casas decimais ou que seja pior que eu na cozinha. Também sei que é só uma música e ninguém está dizendo que as vadias medianas merecem ser traídas ou coisa assim. 

http://cintiamcr.tumblr.com/post/151358227375

A questão é a necessidade e o desejo de sempre sermos os melhores em alguma coisa, a competitividade excessiva. Somos incentivados constantemente a melhorar e, na maioria do tempo, eu acho isso ótimo, mas nada em excesso é saudável.

Durante os 5 anos que levei para concluir a faculdade, eu trabalhei como Programadora. Um pouco antes de me formar, fui promovida a Analista de Requisitos, função parecida com a que tenho atualmente. Essa é uma evolução natural na minha profissão. Para quem possui um perfil mais técnico, o objetivo é sempre estar entre os melhores de uma ou outra tecnologia. A maioria das pessoas que começa como eu comecei, segue um dos dois caminhos. Uma vez, conheci uma pessoa que não queria nenhum dos dois. Era um programador mediano que estava feliz naquela posição, fazendo basicamente a mesma coisa todos os dias, e não queria mudar. E as pessoas não entendiam.

Sempre tento não julgar as pessoas pelo pedaço que estou vendo delas naquele momento. Uma pessoa pode ter milhões de motivos para não querer crescer na profissão e nenhum deles é da minha conta. Não há problema nenhum nisso. Assim como não há problema em eu não saber cozinhar e não querer aprender. Se a Beyoncé não quiser aprender divisão de decimais, ninguém tem nada com isso, ela não está atrapalhando ninguém

A vida é feita de escolhas e, desde que as suas não prejudique ninguém, ninguém deveria te censurar por fazê-las. Tire das suas costas a obrigação de sempre melhorar - é muito mais fácil subir quando sua bagagem está leve.

http://cintiamcr.tumblr.com/post/151352118650/life-in-pieces-1x17-heather-você-não-queria

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