O dia em que a crise [dos 30] me pegou


Foi nas férias. Não foi quando fiz 30. Não foi quando encontrei um novo fio branco na minha cabeça. Não foi quando eu comprei uma máscara de colágeno e um creme diferente para a área dos olhos.

Foi no dia em que fui a um salão chique no centro, troquei a química do cabelo e fiz um corte que viria a amar uma semana depois. Minha pele estava ótima, porque eu tinha feito limpeza no dia anterior. Estava estreando um sapato azul bonito e confortável. Saindo do salão, passei no shopping e comi um dos meus pratos favoritos. Voltei para casa e terminei de ler o novo livro da Becky Bloom. You're the worst teve o melhor episódio da temporada até agora, mas deixei para assistir no dia seguinte, porque deu vontade de ver o filme da Becky pela enésima vez. Como se tudo isso junto não fosse irônico o bastante, era uma quarta-feira, que costuma ser meu dia favorito da semana quando estou trabalhando.
Mas eu estava de férias e o tempo passa de forma diferente, principalmente se não tiver uma viagem em algum momento. A quinta passou, a sexta passou e acordei no sábado com vontade de chorar. Era o dia do show da Sandy, pelo qual eu paguei mais do que gostaria e ao qual eu não queria mais ir. Só queria ficar na cama e chorar.

Tristeza não é um sentimento comum na minha vida. Eu fico com raiva, frustrada, decepcionada, eu não fico triste. Mas, naquele dia, fiquei e sem motivo algum. Também fiquei com medo, e se eu estivesse deprimida? Aí, fiquei mais triste ainda e sem conseguir falar com ninguém, sem conseguir colocar pra fora todos aqueles mil sentimentos, todas aquelas crises vindo ao mesmo tempo. A crise dos 30, a crise de carência, a melancolia de novembro, a síndrome do impostor. O medo de estar fazendo tudo errado, o medo de perder as pessoas que amo, o medo de ficar sozinha. Mas não deixei ninguém perceber, tanto porque não conseguia falar, quanto por não querer respostas. Não queria ouvir que quem tem um prato de comida pra comer e uma cama pra dormir não tem direito de ficar triste. Tampouco queria abraços compreensivos e menos ainda uma sugestão para fazer terapia - me chamem pra seita da Herbalife ou do Crossfit, me mandem virar vegana, digam que eu PRE-CI-SO ler Harry Potter, mas não expliquem DE NOVO o quanto a terapia fez bem para vocês.

Enfim... O que se faz nesses casos? Simples: Segue a vida. Finge que não tem nada acontecendo. Finja até que atinja.

Eu me arrumei. Ondulei os cabelos com babyliss, passei delineador e lápis de olho, vesti um macacão preto lindo, calcei uma sandália de saltos. E saí. Linda para mim mesma. Então, ali, enquanto a Sandy cantava sobre ter 30 e sobre dizer "sim", me sentido deslocada no meio de pessoas que vão a todos os shows e a esperam no aeroporto com cartazes, eu chorei.

Não foi um grande choro, eu não queria chamar a atenção daqueles estranhos, mas foi o pequeno choro que tirou do meu peito aquela tristeza sem motivo.

Ontem, o Timehop me lembrou que já faz um ano desde que escrevi sobre vulnerabilidade, aquele post que ainda é muito importante para mim. Junto, vieram as lembranças de várias pessoas que estiveram na minha vida nos últimos anos e que eu não deixei saírem. Pessoas que, mesmo não estando presentes em minha vida diariamente, tornam mais memoráveis momentos grandes e pequenos.

As amigas do Clube das Chocólatras, a quem eu encontrei ontem e que continuam ali mesmo quando eu resolvo ser chata. Os colegas de trabalho que param tudo o que estão fazendo quando me vêem na empresa, uma vez por mês. A chefe que deu uma faxina na estante e me deu oito livros, porque sim - e o Felipe, que me ofereceu mais um no mesmo dia. Ter uma amiga que, mesmo geograficamente distante, está "ali" o tempo todo, seja para reclamar do trabalho ou comemorar que todas as séries tiveram episódios bons. Ou aquela amiga que não apenas não me julga por ficar pensando em Réveillon com dois meses de antecedência, mas também diz que eu não preciso me preocupar, ela vai dar um jeito.

Quando comecei a escrever sobre isso, lembrei-me de uma "frase de agenda" que escreveram para mim há muito tempo (vide instagram abaixo). Frases de agenda são mães das mensagens em power point e avós das imagens do whatsapp, ninguém mais gosta disso, mas elas eram legais para as adolescentes do ano 2000, e eu adorava agendas, tenho várias cheias. Essa agenda específica não tem nem meia dúzia de páginas em branco, todas estão lotadas de mensagens dos colegas, letras de músicas e poeminhas bregas, é minha favorita. E o que essa mensagem diz é verdade. As pessoas vêm e vão o tempo todo, e o tempo todo nós estamos influenciando e sendo infuenciados, de alguma forma. Essas influências se acumulam, se transformam em preferências, em decisões, formam o que nós somos. E a gente cresce.

As crises sempre existiram e sempre vão existir. Mas, seja sozinha ou com ajuda, vale a pena sair delas apenas para continuar desfrutando desse labirinto cheio de gente a que chamamos de vida.

Uma foto publicada por Cíntia Mara (@cintiamcr) em

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