Santiago Para Leigos - Parte 1

Cordilheira dos Andes - Chile

Como vocês devem ter percebido (eu espero) o blog entrou em um hiato inesperado de quase dois meses. Isso aconteceu porque eu estava finalizando o meu curso de pós-graduação, ao mesmo tempo em que planejava vinte dias de férias em três cidades diferentes e trabalhava em dobro para terminar tudo. Minhas férias vieram e já se foram, sendo muito bem aproveitadas. As duas primeiras partes ocorreram na minha cidade, Belo Horizonte, e também no meu destino mais frequente, Rio de Janeiro. A terceira, sobre a qual falarei hoje, foi em Santiago. Vamos conhecer um pouco sobre a capital chilena?


A cidade

Costanera Center - Santiago - Chile
Costanera Center
Santiago é a capital do Chile, o comprido país a oeste da Cordilheira dos Andes. Possui 641 quilômetros quadrados (o dobro de Belo Horizonte, a metade de São Paulo) e cerca de 5,5 milhões de habitantes (o dobro de Belo Horizonte, a metade de São Paulo). Casa de pessoas simpáticas e receptivas, a cidade se tornou um dos destinos favoritos dos brasileiros nos últimos anos. Tanto que não me faltaram amigos para dar dicas - muchas gracias a todos! - e essa popularidade foi crucial na minha escolha. Agora, sou um deles. Mais uma que se apaixonou pela cidade, que recomenda, que quer voltar.

Em Santiago tem um pouco de tudo. Como bem explicou o guia de um passeio que fiz, no Chile você pode esquiar pela manhã e surfar depois do almoço. A capital está situada em um vale ao centro da estreita faixa que forma o país e também conta com opções para amantes da natureza, da história ou da gastronomia. Eu não conseguir fazer tudo o que gostaria, por motivos que explicarei mais tarde, mas são muitas atrações, que deixarei para um segundo post. Neste, quero focar em aspectos práticos, pois creio que algumas dicas podem ser úteis para quem também quiser se aventurar.

A viagem

Para chegar a Santiago, caso não more em São Paulo ou Rio de Janeiro, é muito provável que você precise fazer uma conexão. Recomendo que não adquira uma combinação que vá requerer troca de aeroportos. Esses costumam ser mais baratos, mas não compensa o desgaste, a correria ou mesmo o valor da condução entre um aeroporto e outro, especialmente se for entre Congonhas e Guarulhos.

A partir de SP ou RJ, o tempo de voo é de aproximadamente quatro horas. Minha ida foi muito tranquila, o avião só balançou um pouco após passar pela Cordilheira dos Andes. A volta, porém, teve três horas do que, mais tarde, eu descobri ser uma "turbulência moderada": Aquela em que até os comissários apertam os cintos, você tem certeza que vai morrer de infarto antes do avião cair, mas, no final, acaba apenas com a mão melada do suco de laranja que entornou. Quando comecei a me desesperar, um senhor ao meu lado me disse para ficar tranquila, pois ele pega esse mesmo voo toda semana e isso é normal. Não tenho certeza se a abordagem dele foi a melhor diante de alguém que estava gastando todas as suas forças para não gritar, mas estamos vivos, é isso o que importa.

Making History - Deborah Revere - 1x04 - What a mild annoyance

Se você gosta de belas paisagens, escolha um assento à janela e não perca a oportunidade de ver a majestosa Cordilheira dos Andes, especialmente se for inverno. A imagem que abre o post é de lá, assim como a foto que eu postei no Instagram assim que cheguei. Em ambas, dá para ver um pouco de neve; em outros pontos, dá para ver alguns lagos, com a água bem azul. É uma visão incrível. A Alice, minha companheira de viagem, fez um vídeo que vocês podem conferir no Instagram dela, alicebertucci.

Por fim, uma boa notícia: Para entrar no Chile, você não precisa de visto ou passaporte, apenas um documento de identificação oficial com foto que tenha menos de 10 anos. A passagem pela alfândega foi rápida e muito tranquila. Na ida, você terá que preencher um questionário de uma página, informando se está levando produtos de origem animal ou vegetal, ou uma quantia em dinheiro acima do permitido (não tenho certeza se eram dez mil reais ou dez mil dólares). Um pequeno inconveniente ocorreu na chegada ao aeroporto de Santiago, pois havia um cachorro próximo à área do Raio X, junto a um funcionário do aeroporto. Eu tenho medo de cachorro, então me assustei e chamei a atenção para mim. Como consequência, tive minha bolsa revistada, mas não havia nada de errado com ela e fui logo liberada.

Idioma

O idioma oficial do Chile é o Espanhol. Eu comecei a estudar Espanhol há dois anos, mas tive que parar quando comecei a pós graduação, então, cheguei lá estando completamente enferrujada - inclusive, comprei um daqueles guias de bolso para pesquisar quando precisasse, mas acabou não sendo tão útil quanto eu esperava. No segundo dia, porém, eu já conseguia me comunicar melhor. Santiago é uma cidade bem preparada para lidar com turistas, inclusive, o turista brasileiro em específico. Assim, conversamos em uma mistura de Português, Espanhol e Inglês, que acabou dando certo.

Mesmo assim, vale a pena aprender algumas frases básicas. Pense no que é importante para você e procure a tradução. Para mim, por exemplo, é sempre importante saber onde fica o banheiro e se a comida que estou pedindo tem molho de tomate. Se você tem alergia a algum alimento, é bom aprender o nome dele; você certamente não quer ir para o hospital na primeira noite de viagem porque você é alérgico a abacaxi e a primeira bebida que o garçom te ofereceu foi um jugo de piña (confiem em mim, a Lei de Murphy não perdoa).

Atenção: Não confie 100% no Tradutor do Google. É um software muito bom, que eu utilizo muito, mas pode ter falhas. Dependendo do caso, vale a pena fazer uma busca de imagem pela palavra traduzida (por exemplo, ao digitar piña no Google, você verá abacaxis suficientes para saber que a tradução está correta. Para o caso de frases mais longas, a dica é pegar a tradução em Espanhol e converter novamente para Português; às vezes, o sentido muda completamente e você percebe o erro. Se isso acontecer, tente reformular a frase no idioma de origem, testando alguns sinônimos e sempre utilizando a forma culta da nossa língua.


Dinheiro

A moeda oficial do Chile é o peso chileno. Outros países, como a Argentina e o Uruguai, também utilizam pesos, mas não se engane, cada moeda é diferente. A partir deste momento, quando eu disser "peso" ou utilizar o símbolo $, saibam que me refiro apenas ao peso chileno, obviamente, já que é desse país que estamos falando.

Um real brasileiro (R$) vale, aproximadamente, duzentos pesos chilenos ($). Assim, um peso vale meio centavo de real. Pelo que me disseram, a cotação mais favorável ao brasileiro é a do aeroporto de Santiago, e é melhor pagar em dinheiro sempre que possível, pois cartões estão sujeitos a tributação e taxas a cada utilização. De qualquer forma, se você tiver um cartão internacional, recomendo habilitá-lo para uso no exterior durante o período da viagem, apenas para ter uma maior segurança. Consulte seu banco para saber quais serão seus custos.

Dos bancos atuantes no Brasil, o único que vi em Santiago foi o Santander. Se este for o seu banco, fique tranquilo, pois há agências espalhadas por toda a cidade, porém, há uma tarifa de saque no valor de $5000 (~ R$25).

Devido à grande diferença no valor das duas moedas, é fácil perder a noção de quanto dinheiro você realmente tem. Uma nota de $20000 (~R$100) parece muita coisa, mas mal paga uma corrida de táxi ao aeroporto ou uma refeição para duas pessoas. Fique atento!

Hospedagem

Quando eu estava planejando minha viagem, consultei pessoas que já haviam visitado a cidade sobre os melhores bairros para se hospedar e me recomendaram a comuna (ou municipalidad) de Providência. No Chile, as cidades são divididas em comunas, cada uma com administração própria e vários bairros. Providência é uma comuna adjacente ao centro e, de fato, um dos melhores lugares.

Dentre os vários hotéis disponíveis, escolhemos o Tulip Inn Presidente, no bairro Salvador, pois apresentava um bom preço, boa localização e as diárias incluem café. Não me arrependo e recomendo o hotel para quem visitar a cidade. O atendimento foi muito bom, tanto os recepcionistas quanto o pessoal do restaurante eram sempre muito solícitos e pacientes, o café da manhã é variado, e o restaurante também fica aberto para almoço e jantar.

Falarei em seguida sobre o transporte na cidade, mas adianto que um ponto crucial é se hospedar próximo ao metrô. Nós ficamos a um quarteirão da estação Salvador, o que aumentou o custo-benefício do hotel. Se quiser algo ainda mais fácil, hospede-se próximo à estação Baquedano, que é atendida por duas linhas e fica a poucos quarteirões dos principais restaurantes e parques da cidade.

Transporte

As opções de transporte em Santiago incluem: ônibus, metrô, táxi, Uber e Cabify. Os ônibus eu não utilizei, então não tenho nada a dizer. Uber e Cabify funcionam da mesma forma que no Brasil, porém, as tarifas são apresentadas em pesos e lançadas no cartão em dólar, para conversão em reais no fechamento da fatura. Usamos apenas duas vezes, dado que não havíamos habilitado o roaming internacional em nossos telefones e dependíamos apenas da wifi do hotel ou shoppings.

Utilizamos táxis cinco vezes, sendo duas para ir e voltar do aeroporto e três dentro da cidade. É fácil encontrar um taxista disponível próximo às estações, shoppings, museus ou restaurantes, mas o valor das corridas é alto - embora não pareça, dado que a bandeirada custa apenas $300 (~R$1,50). Para dar uma ideia, a corrida entre o aeroporto e o hotel, de aproximadamente 20km, nos custou $20000 (~ R$100), o dobro do que custaria em Belo Horizonte.

Também é necessário tomar cuidado. Infelizmente, assim como no Brasil, no Chile há taxistas que justificam a desconfiança. Eu sou sempre desconfiada, gosto de saber onde estou, por qual caminho vamos e tudo o mais, principalmente quando não tenho um aplicativo para me resguardar. Mesmo assim, dei bobeira por um instante e fomos prejudicadas. Entreguei uma nota de $20000 para pagar uma corrida de $10000, mas o motorista a trocou rapidamente por uma de $5000, dizendo que eu havia me enganado. Pagamos o que faltava e só mais tarde, depois de procurar sem sucesso a nota de 20 que eu sabia estar na carteira, eu me dei conta do que havia acontecido, já que eu não estava com nenhuma nota de 5 naquele dia.

Felizmente, Santiago possui o maior sistema de metrô da América Latina e esse foi o nosso meio de transporte favorito. A passagem é barata, variando em torno de $700 (R$3,50) dependendo do horário, e é possível chegar a praticamente todos os pontos de interesse. Para quem vem de cidades que não possuem metrô (ou possuem apenas uma linha, como BH), é preciso prestar atenção às linhas e ao sentido de cada uma. Além disso, em algumas linhas, há trens que não param em todas as estações, então, consulte os mapas disponíveis nas plataformas e atente para a rota (verde ou vermelha) em que se encontra sua estação de destino.

Segurança

Parece ser um consenso que Santiago é uma cidade bastante segura. Como nos informaram um taxista e um dos recepcionistas do hotel, as chances de você sofrer um assalto à mão armada são pequenas. Porém, cuidado nunca é demais, especialmente no caso de turistas. Fique atento aos arredores, não mostre dinheiro na rua e ande com a bolsa sempre à frente, principalmente nas redondezas do Mercado Central. Além disso, como eu já disse, preste atenção ao pagar não apenas os taxistas, mas qualquer serviço.

Comida

Comida é sempre uma das minhas preocupações ao viajar, pois sou uma pessoa muito seletiva e não como nada sem saber o que é. Inevitavelmente, minha apreensão aumenta ao pedir comida em um idioma que eu não domino e aumentou ainda mais quando percebi que não existem restaurantes self-service na cidade. Como a Alice me informou, essa é uma invenção brasileira - belo horizontina, inclusive - e incomum fora do nosso país. Assim, eu li com cuidado todos os cardápios e me refugiei nas saladas e nos sanduíches. Fiquei aliviada quando percebi que todos os restaurantes possuem opções de salada Caesar com frango (ensalada cesar con pollo) e batatas fritas (papas fritas). Porém, quem vai fazer a festa é quem gosta de frutos do mar. São várias opções e com preços mais baixos que a média brasileira. Aproveitem!

Uma vantagem de só comer em estabelecimentos a la carte é que todos eles servem pão com manteiga (mantequilla) antes da refeição e o pão chileno é delicioso. Além disso, todos também possuem variadas opções de sobremesa, coisa que não é tão comum nos serviços a quilo. Falarei mais sobre os restaurantes em que comemos no próximo post.

Para beber, uma bebida tradicional do país é o pisco sour, algo parecido com cachaça, só que de uva e com clara de ovo. Eu odeio bebidas fermentadas, então, não gostei, mas tenho várias amigas que adoram. Quem é do time do suco (jugo), o meu time, as opções mais comuns são laranja (naranja), abacaxi (piña), framboesa (frambuesa) e pêssego (durazno).
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Clima

Ao contrário do Brasil, o Chile tem estações muito bem definidas. Agora, no Outono, o sol nasce por volta das 8:00 e se põe a partir das 19:30. É frio, como o frio do inverno de Belo Horizonte: um céu azul que engana, baixa umidade, vento, temperaturas que variam muito ao longo do dia. Se você é de BH, Brasília ou qualquer outra cidade que passa meses sem receber uma gota de água do céu, não deve estranhar muito. Porém, amigos do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná ou outros lugares que sabem o que umidade, levem seus melhores hidratantes e tenham sempre uma garrafa de água na bolsa.

A menos que você conte o último episódio do revival de Gilmore Girls, eu nunca tinha visto um Outono de verdade na vida. Minha estação favorita sempre foi a Primavera, com os ipês carregados e todas as suas cores. Agora, fiquei maravilhada ao descobrir no Chile que o Outono também tem suas cores. São dezenas de tons de verde, amarelo, laranja, marrom e até mesmo azul - uma ótima inspiração para quando eu tomar coragem de terminar meu Jardim Secreto. Às vezes, eu realmente me sentia em um episódio da minha série favorita.
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Feriados

Algo muito importante a se considerar ao marcar sua viagem são os feriados, pois os chilenos levam o descanso muito a sério. Há dois tipos de feriado, os normais e os irrenunciáveis. Nos feriados normais, a maioria das coisas está fechada, mas restaurantes e alguns museus ainda abrem. Nos irrenunciáveis, todos são proibidos de trabalhar. Mesmo tendo pesquisado muito, eu acabei pegando um feriado normal (Sexta-feira da Paixão) e um feriado irrenunciável declarado pelo governo para realização do Censo no dia 19 de Abril. Nesse dia, não apenas estava tudo fechado, como os chilenos também não podiam sair de casa e nós acabamos optando por ficar no hotel.

É ruim? É. É o cúmulo da intervenção do governo na vida dos trabalhadores? É. Mas não há nada que um turista possa fazer a não ser se planejar para não ser prejudicado e torcer para que esse absurdo nunca chegue ao nosso país.

Compras

Quando decidir viajar para o exterior, eu não dei muito importância ao tópico compras e nem sequer planejava escrever sobre isso. Tudo mudou quando eu encontrei Maybelline, L'oreal e Clinique pela metade do preço que pago no Brasil. Felizmente - embora não pareça, reconheço - eu sou uma pessoa bastante controlada e consegui comprar apenas produtos que eu já teria que comprar de alguma forma. Mas, às vezes, era difícil resistir à tentação.

Os melhores produtos - tanto na cidade de Santiago quanto no Duty Free - são os cosméticos, maquiagem e chocolates. Comprei muitos hidratantes, especialmente para as mãos, porque é um item que eu estou sempre consumindo. Também comprei cremes para o rosto, máscara de cílios, batom, hidratantes para o corpo e máscara de limpeza para pele oleosa. Vi preços de roupas, mas não acho que compensem. E os livros, isentos de tributação no Brasil, são bem caros lá.
Se você também está prestes a experimentar pela primeira vez um território livre dos impostos abusivos a que o brasileiro se submete, preste atenção nas seguintes dicas:

  • Tenha uma lista, ainda que improvisada, dos produtos que você usa, incluindo o preço e a quantidade que vem em cada embalagem;
  • Não tenha pressa. Avalie todas as opções e, sempre que puder, experimente antes de comprar;
  • Não tenha vergonha de abrir a calculadora do celular para converter os valores;
  • Preste atenção à data de validade, especialmente se for comprar itens repetidos ou algo que já tenha em casa;
  • Veja os preços na ida, mas deixe para comprar na viagem de volta. Assim, você não irá se arrepender caso encontre algo ainda melhor no país de destino;
  • Verifique a moeda em que está sendo cobrado. No Duty Free do Brasil você verá o preço em dólar e terá a opção de converter para reais; no do Chile, você verá e pagará em dólares;
  • Atente ao limite estabelecido para compras no exterior. Atualmente, brasileiros podem retornar ao país com o equivalente a 500 dólares de compras realizadas no país em que estava mais 500 dólares de compras no Duty Free, sendo que essas são contabilizadas de forma automática quando você apresenta a passagem e o limite é um só para ida e volta.

É isso, por enquanto. Não perca a continuação do meu relato de viagem na próxima semana. A melhor parte ficou para o final. Antes disso, se quiser saber mais, não se esqueça de seguir o meu perfil pessoal no Twitter e no Instagram.

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