Lista de não arrependimentos


Há duas semanas, ao me cansar de ler e procurar outra coisa para acalmar meu pavor de altura durante um voo de três horas, assisti ao primeiro episódio de Being Erica. A série é minha favorita - junto com Gilmore Girls - e já assisti duas vezes do início ao fim. Gosto de manter os episódios no meu celular para assistir aleatoriamente, pois eles são conhecidos por dizer exatamente o que você precisa ouvir em qualquer momento da vida.

Este não é um post sobre a série, apenas foi inspirado nela. Erica é uma mulher de 32 anos linda, gente boa e inteligente, que não consegue manter um relacionamento ou um trabalho à altura do que ela merece. Em um dia particularmente ruim, ela encontra o Dr Tom, um terapeuta diferente, que lhe dá a possibilidade de voltar ao passado para refazer as suas decisões erradas. Assim, sob a orientação dele, ela escreve uma lista imensa com todos os seus arrependimentos, acreditando que, se puder corrigi-los, ela enfim terá a felicidade e plenitude que busca. Mas as coisas não são bem assim.

Decisões me fascinam. Não de forma distante e reverente, como a maioria das pessoas que as temem. Eu gosto de tomar decisões e me considero boa com elas. Minha lista de arrependimentos não parece ser especialmente longa. Se pudesse voltar, eu não teria terminado aquele namoro em 2000, votado naquele candidato a presidente em 2002 e nem recomendado aquela série para todos os meus amigos em 2013. Mas não posso, né? Apesar da premissa de viagem no tempo, uma das muitas coisas que Being Erica me ensinou foi a encarar as consequências das minhas decisões, porque - como diz minha citação favorita do mundo, que mantenho no meu notebook e no espelho do meu armário - o que eu sou é a soma de todas elas, sejam boas ou más.

E é aí que eu quero chegar. Ninguém é totalmente mau, ninguém é totalmente bom e ninguém é totalmente moldado por decisões erradas. Alguma coisa certa você deve estar fazendo na sua vida.


Eu não me arrependo da profissão que escolhi. Mesmo quando estou exausta e quero jogar tudo para o alto, eu chego ao final do dia sabendo que é aquilo mesmo o que eu quero fazer, que é aquilo que eu faço bem, que fiz a escolha certa. Também não me arrependo das decisões majoritárias que tomei ao longo do caminho. Não me arrependo de forma alguma de ter contrariado o desejo do meu pai e me recusado veementemente a prestar concurso público. Não me arrependo de ter trabalhado durante todo o período da minha faculdade, de ter mantido os meus princípios em um lugar que queria me transformar em alguém que eu não sou.

Não me arrependo de não ser uma workaholic, de tirar um tempo para manter os vários hobbies que adquiri ao longo dos anos. Não me arrependo do dinheiro que gastei com livros, CDs e DVDs. Não me arrependo das noites de sábado vendo série. Não me arrependo de me envolver com pessoas fictícias e deixar que me ensinem a ser uma versão melhor de mim mesma. Não me arrependo dos sorrisos e lágrimas dentro do ônibus ou tarde da noite.

Não me arrependo das minhas viagens, dos 3,74% do mundo que já conheci. Não me arrependo de repetir lugares que me fazem bem ou de tirar muitas fotos o tempo todo. Não me arrependo dos amigos de longe que fiz e que me receberam de braços abertos em suas cidades.

Não me arrependo dos amigos que fiz, das pessoas que deixei entrar. Nem mesmo daquelas que me machucaram ou que ainda me machucam - acontece, é a vida. Também não me arrependo de deixar ir aquelas que repetidamente me fizeram mal. Nem todas as pessoas são minhas pessoas e espero que estejam tão bem sem mim quanto eu estou sem elas. Não me arrependo daquelas que me esforcei para manter e que estão aqui para mim quando eu preciso. Não me arrependo de ter estado lá por elas e não me arrependerei das vezes em que ainda estarei.

Não me arrependo de ter criado este blog e nem dos outros que tive antes dele. Ainda que alguns textos hoje me envergonhem, eles também mostram evolução. Não me arrependo das vezes em que me abri, me permiti ser vulnerável diante de pessoas que talvez eu nem conheça. De todas as horas que gastei pensando, pesquisando, produzindo. E de todas as pausas que dei, pois ninguém é de ferro e, às vezes, a vida real atrapalha mesmo o nosso planejamento perfeito.

Jamais me arrependerei de acreditar em Deus, de aceitar o sacrifício que Jesus Cristo fez por mim, de fazer o que posso para amá-lo de volta. Mas também não me arrependo de ter deixado uma igreja (com i minúsculo) que já não me ajudava a me aproximar da razão para eu estar ali.

Não me arrependo de ter tomado minhas próprias decisões, de não abrir mão desse direito. De cometer os erros que eram meus para serem cometidos. Não me arrependo das vezes em que cuidei de mim. Não me arrependo - e não devo me arrepender - de nada daquilo que me tornou uma pessoa melhor, uma pessoa mais em paz comigo mesma. Que me colocou no caminho certo. No meu caminho certo.

Faltam menos de dois meses para terminar o ano. Novembro é quando a gente começa a pensar em tudo o que deu errado, todas as metas não cumpridas. Uma boa notícia: Tenho certeza que você também tem muito do que não se arrepender. Faça a sua lista, parabenize a si mesmo. Comemore todas as suas decisões certas e vamos torcer para que no próximo novembro nós tenhamos muitas mais para celebrar.

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