Empatia também importa


Quando terminei o post da semana passada, assim como faço toda semana, eu entrei no Trello e movi o cartão dele para a coluna de "Programado" e conferi o assunto do próximo, para começar a pensar sobre ele e já ter algo na cabeça quando começasse a realmente escrever. Depois de começar o ano falando sobre planos, organização e produtividade, dei uma virada para escrever aqueles dois posts pessoais inspirados por duas das minhas séries favoritas e estava pronta para virar mais uma página, porque eu faço questão de não ser monotemática. Esse era o plano até a tarde de quarta-feira, quando aconteceu a coisa mais confusa desses quatorze anos desde que eu entrei na minha primeira rede social, então, por causa disso, lá vou eu escrever um post pessoal sobre série novamente. Com a diferença que, apesar da imagem festiva, este assunto é muito mais sério e ligeiramente perturbador.

Um pouco de contexto: Na última terça-feira, foi exibida nos EUA o final da segunda temporada de This is Us, um episódio que achei ótimo até os últimos três minutos quando, dentre outras coisas, uma visão do futuro mostrou um casal inesperado. O personagem por quem eu vinha torcendo tanto para conseguir resolver seus problemas com a ex-mulher estava com outra pessoa, a despeito do tanto que a série parecia ter investido no relacionamento anterior. Assim como várias outras pessoas, eu fiquei chateada e fui para o Twitter - porque, se eu quisesse falar de coisa séria, eu iria para o Linkedin, no Twitter eu quero é surtar com série mesmo. Sem entender nada, eu respondi a alguns tweets de perfis envolvidos na série, perguntando se era aquilo mesmo. Para quem não está familiarizado com a dinâmica do Twitter, isso é normal, ok? A gente assiste série e interage com atores e roteiristas, às vezes tem uma resposta, uma curtida ou um RT, e depois a gente volta pra vida real. Obviamente, tem aquelas pessoas que levam tudo à sério demais e ficam importunando todo mundo, mas, mesmo contrariada, essa nunca foi a minha intenção (bom, eu assisto Grey's Anatomy e sou #teamJolex até o fim, a última coisa que quero na minha vida de seriadora é entrar para o time que passa anos reclamando a saída de uma atriz).

Enfim, algumas pessoas responderam a um desses tweets, e eu respondi de volta. Ainda nada fora do normal. Até que eu comentei algo sobre temer que a série começasse a comparar as duas e eu acabasse odiando a nova personagem. Acontece que a nova personagem é negra e ninguém havia me contado que é proibido não gostar de personagens não-brancos. Se você lê em inglês, pode ir no meu Twitter pessoal e buscar os tweets do dia 14/03.

Corta para 2016. Como vocês devem se lembrar, em 2016 a Mattel lançou uma nova coleção de Barbies com corpos, cabelos e tons de pele diversos (que, cá entre nós, são muito mais bonitas que as tradicionais) e foi uma grande celebração à diversidade. Naquela época, uma coisa ficou na minha cabeça. Para divulgar as bonecas, foi feito um comercial em que uma criança dizia que finalmente teria uma bonita com que ela pudesse se identificar (ou uma boneca que a representasse, não tenho certeza de qual palavra ela usou e parece que o vídeo foi removido do Youtube).


Eu me lembro de ter conversado com os meus amigos sobre representatividade na ficção e sobre como me incomodou essa ideia de que a identificação precise ser física, porque comigo nunca aconteceu assim e eu não acho que o físico deveria importar tanto.

Não me entendam mal, eu não estou dizendo de maneira alguma que a diversidade é ruim. Ter negros, asiáticos ou indígenas nas ficções é ótimo, porque essas pessoas existem.  Como coletivo, é um problema se uma etnia ou cultura for completamente apagada. É importante que existam séries como Designated Survivor ou Superstore, onde brancos, negros, latinos, asiáticos, árabes etc existem em um mesmo contexto, porque isso é a vida real. Sendo bom para as pessoas pertencentes a esses grupos, é bom para a sociedade em que elas estão inseridas, o que acaba sendo um ciclo a meu ver muito benéfico. O que me incomoda é a necessidade de representação em nível individual.

Segundo o dicionário do Google, uma das definições da palavra indivíduo é "organismo único, distinguível dos demais do grupo". Eu sou um ser único. Você é um ser único. Se eu me apegar ao físico e procurar um personagem que realmente me represente em questões superficiais, não vou encontrar nunca.

No último post, eu comentei que a personagem de This is Us que teoricamente está ali para me representar é a Kate, porque é uma mulher acima do peso, mas a Chrissy Metz pesa 80 quilos a mais do que eu, tem os olhos azuis e a pele linda, ela não passa nem perto de ter as mesmas questões que eu tenho. Quando comecei a assistir Desperate Housewives, havia uma personagem que teve que largar a carreira para cuidar dos filhos e se ressentia por isso, o que é exatamente o que vai acontecer se algum dia eu precisar virar dona de casa, e eu esperava me identificar com ela, mas aconteceu o oposto, eu me identifiquei com a personagem que nasceu pra ficar em casa cuidando dos filhos e cozinhando pro marido. Sempre que eu faço um daqueles testes de "Quem é você em Grey's Anatomy", o resultado é a Lexie (inteligente e com boa memória), ou a Bailey (líder nervosa), ou até a April (garota cristã da família tradicional brasileira). Mas, embora eu goste das três, quem me faz encher os olhos d'água desde a primeira tela e olhar para a tela dizendo "aquilo ali sou eu" é o Alex, que já dormiu metade das mulheres de Seattle e opera em crianças, quando eu até hoje não fui visitar a amiga que teve bebê em janeiro, porque tenho medo de chegar muito perto e machucar.

Identificação tem que vir de dentro. Ninguém escolhe um melhor amigo pela cor da pele ou pelo peso, a gente se torna amigo quando percebe ter muitas coisas mais em comum.

O que aproxima as pessoas é o medo de nunca ser bom o bastante, a dificuldade de manter um relacionamento, a ferida de perder alguém importante. São coisas internas. Por dentro, nós somos todos iguais. Vou repetir aqui a citação de Being Erica que usei há duas semanas, porque ela é importante para mim, é uma verdade que me ajuda a tomar meu rumo quando tenho dificuldades para entender as pessoas difíceis na minha vida.


Nessa época confusa da História em que vivemos, eu percebo que as pessoas focam muito nas diferenças, o que não faz nenhum sentido para mim. Esse é um dos meus problemas com o feminismo, sobre o qual já escrevi em 2016, que tenta resolver as injustiças causadas pelo machismo através de mais separação.

Coincidentemente, o dia que eu fui sugada para essa treta ridícula e sem fundamento foi também o dia em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada, e o que vi (o que temos visto desde então) só me deixa mais horrorizada. Nós nos tornamos incapazes de enxergar o outro na sua essência. As pessoas enxergam "mulher, negra, lésbica, esquerdista, defensora dos direitos humanos" quando deveriam enxergar apenas "ser humano". Dois seres humanos foram assassinados. Duas famílias estão sofrendo enquanto a internet fica inventando boatos e causando intriga.

E aí eu volto na Barbie. Quando dizemos que uma menina negra precisa de uma boneca negra para se identificar, nós também estamos dizendo que o menino branco não pode se identificar com essa boneca. Nós estamos apontando a diferença para os dois. Quando alguém me diz que "bem-feito para as brancas que o personagem branco esteja namorando uma negra", também está me dizendo que aquela personagem negra não pode ter nada a ver comigo, que mais nada importa além da cor.

Nesse caso específico, chegou a ser engraçado, por dois motivos. Primeiro, porque eu acabei amando a personagem, só não gostei da história em que a colocaram. E segundo porque, pelos padrões americanos e europeus, apesar da minha pele desprovida de melanina, eu também não posso ser considerada branca, já que meu avô era negro. Uma pessoa - branca, européia - questionou o fato de eu não ter falado isso na discussão, mas não acho que seja um argumento válido, dado que qualquer pessoa, independente da sua cor ou de seus ancestrais, tem direito de gostar ou não gostar do personagem que quiser.

O que nós não temos direito é o de desrespeitar. De esperar que todos concordem conosco. De matar - seja mulher, negra, lésbica ou homem, branco, hetero.

Mas essas coisas vão continuar acontecendo enquanto nós não aprendermos a focar no que realmente importa. Nós somos 7 bilhões de pessoas horríveis, imperfeitas, quebradas, cada um de nós com grande potencial para fazer coisas ótimas, mas que também vai cometer muitas merdas no caminho. Com um pouco de boa vontade, tenho certeza que eu conseguiria descobrir que tenho algo em comum com cada uma dessas pessoas. O exercício com personagens fictícios funciona muito bem comigo, como quando mencionei os personagens de Grey's ou quando estou conversando sobre TIU e digo (e eu digo isso sempre) que tenho "o lado físico da Kate e o intelectual do Randall, mas o emocional ferrado é todinho Kevin".


Talvez eu esteja ficando repetitiva, porque meu post sobre The Good Place também seguiu nessa linha, mas eu realmente precisava escrever tudo isso e clamar mais uma vez por ela, essa palavrinha que já está ficando banalizada, mas que continua sendo uma peça importante que falta: Empatia.

Independentemente das suas características externas ou das dores que você carrega por dentro, independentemente dos seus valores pessoais ou da sua história, de uma coisa eu tenho certeza: Empatia também importa.

(PS: Eu não revisei esse post, para não correr o risco de desistir e cancelar; irei revisar assim que puder, mas depois de publicado. Assim, peço que me desculpem e me avisem caso encontrem algum erro ou alguma coisa estranha.)

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