O lugar bom


Imagine que você tenha sido uma pessoa mais ou menos durante toda a sua vida. Você não matou ninguém, nunca roubou, nem nada extremo, mas também não fez nada fundamentalmente bom. Na maior parte do tempo, você só se preocupa com você, com o momento, os outros apenas estão ali. Você não se importa com muita coisa, não é como se houvesse alguém registrando todas as suas ações e atribuindo pontos a elas em uma planilha do Excel, não é mesmo?

Aí você morre e vai para o Lugar Bom. Por engano. Você descobre que aquela planilha existe - ou uma versão mais avançada dela - e que o somatório da sua vida deu negativo. Você está no Lugar Bom, mas você deveria estar no Lugar Ruim. E o Lugar Bom se torna uma tortura, porque todos ali são melhores que você e fazem com que você se sinta culpada o tempo todo.
Para quem não conhece (ou não reconhece) essa é a história central da série The Good Place, exibida pela rede de TV americana NBC e disponível na Netflix.

Aqui cabe uma pausa para esclarecer dois pontos: 1) Este não é um post especificamente sobre a série, apenas a utiliza como base. 2) Embora não esteja nos meus planos contar detalhes sobre a história, este blog não é, nunca foi e nunca será uma zona livre de spoilers.

The good place - Sistema de pontos do Lugar Bom.
Sistema de pontos do Lugar Bom.

Voltando ao assunto, quem me conhece sabe que a ficção é algo importante para mim e, em especial, que eu amo personagens que são problemáticos e quebrados. Pretendo escrever sobre a primeira parte em um futuro próximo, mas hoje quero explorar um pouco mais as minhas Pessoas Horríveis.

Vários livros e várias séries já exploraram as Pessoas Horríveis. Algumas, como minha favorita You're the worst, fazem isso muito bem e mostram não apenas as ações, mas os motivos por trás de cada uma delas. The Good Place, embora também ofereça essa perspectiva, vai mais fundo, questionando não apenas as ações especificamente más, mas as motivações e o que cada um pode fazer para melhorar.

Ao longo dos vinte e cinco episódios de vinte e poucos minutos da série, vemos a protagonista Eleanor Shellstrop tentando se transformar em uma pessoa melhor, mas também conhecemos aos poucos os outros personagens e percebemos que, talvez, a linha que separa o Lugar Bom do Lugar Ruim não seja assim tão clara. É aí que eu quero chegar.

Personagens de The Good Place - Tahani, Jason, Eleanor, Janet, Chidi e Michael
Tahani, Jason, Eleanor, Janet, Chidi e Michael

Algo que eu defendo com todas as minhas forças é que não existe ninguém absolutamente bom ou absolutamente mau. Ninguém.

The Good Place sabiamente evita tomar partido de qualquer religião, mas como cristã, eu acredito que ninguém merece o Lugar Bom, porque nenhum ser humano jamais alcançará o nível de bondade e perfeição do Deus que nos criou. A vida é como o Dilema do Bonde, que tanto torturou Chidi em um dos episódios da segunda temporada. Nós somos as cinco pessoas no caminho original, o caminho errado, e Jesus é a única pessoa do outro lado, que vai morrer se o caminho do bonde for alterado. Deus desviou o bonde pra matar só um e salvar o resto - com a única condição de que, para ser salvo, você precisa acreditar e aceitar que ele fez aquilo por você.

Mas este post também não é sobre religião, é sobre humanidade. A nossa tendência é achar que somos bons o bastante, mas não somos. Jamais seremos. O simples fato de pensar que eu posso ser melhor que qualquer outra pessoa para merecer uma recompensa que nem todos receberão já me torna não merecedora. E, como tanto Eleanor quanto Tahani aprendem, fazer algo bom pensando na recompensa já tira boa parte do seu mérito.
A nossa tendência é achar que estamos sempre certos e os outros estão errados. Qualquer pessoa que utilize as redes sociais sabe como está cada vez mais difícil conviver, porque ninguém escuta os outros, ninguém reconhece a humanidade do outro. Confesso que eu também sou culpada disso. Já melhorei bastante, mas ainda e silencio pessoas com posições políticas opostas às minhas no Facebook, e a lista de perfis que eu bloqueei no Twitter por odiarem meus personagens favoritos é muito maior do que eu gostaria. Não me orgulho disso, de forma alguma, porque eu sei e defendo que cada um tem direito à sua opinião, baseada em sua personalidade e experiências, isso é absolutamente normal e seria um problema se não existissem divergências.

Reconhecer a própria humanidade é difícil, mas pior ainda é reconhecer o quanto nós somos iguais. Uma das minhas citações favoritas fala sobre isso e fala muito melhor do que eu jamais poderia:

"Você coloca o outro lá embaixo e coloca a si própria aqui em cima. E você diz: Aquilo não sou eu. Eu nunca seria daquele jeito. Aquela é outra pessoa. Indigno, um monstro. É uma velha história. É assim que as guerras começam, é assim que as pessoas se voltam umas contra as outras. E, sabe, começa simples. Eu não sou você. Eu não sou nem um pouco como você. E é sempre mentira. Porque debaixo de todos os níveis de medo e proteção, no fundo nós somos a mesma coisa. Nós temos as mesmas necessidades. Nós carregamos em nós a mesma capacidade para o bem e o mal." Being Erica 4x01

É muito difícil fazer isso no dia-a-dia. Quando era mais nova, eu costumava dizer que escolhi Ciência da Computação porque trabalhar com máquinas é melhor que trabalhar com gente. Essa é uma das coisas mais idiotas que eu já disse. Quero dizer, trabalhar com máquinas é, sim, muito mais fácil, mas meu trabalho jamais se resumiu a isso. Eu lido com pessoas todos os dias e algumas delas são realmente difíceis. Tem gente que dá "bom dia" e eu já me irrito. Como tenho facilidade para sentir empatia por personagens fictícios, às vezes eu preciso imaginar que essas pessoas são parte de um livro ou de uma série, isso me ajuda a enxergar o que está por trás, qual a verdadeira motivação daquela pessoa e o que eu posso fazer para tornar o nosso relacionamento (e a minha vida) melhor. Mas esse é um exercício constante, porque novas pessoas irritantes vão chegar e as antigas vão encontrar novas formas. Porque ninguém é perfeito. Eu não sou; eles não são.

Nem aquele amiguinho que vai votar no mesmo partido liberal que eu e nem aqueles usam badge do Bolsonaro ou defendem o Lula. Nem eu e nem aquele comentarista do Banco de Séries que acha que os problemas de saúde do meu personagem favorito são "white people problems". Nem aquela pessoa que faz tudo pela equipe e nem aquela outra que só quer o mais fácil pra se sair bem.

É simplista dizer que todo mundo tem dois lados, nós temos vários. Nós somos um conjunto de características boas ou ruins. Nossa casa não é o Lugar Bom, não é o Lugar Ruim, o mesmo o Lugar Médio, é um lugar real muito mais complexo que isso. As nossas atitudes, coletivamente, o tornam melhor ou pior. Cabe a mim tomar as decisões certas e tentar enxergar a luz no que parece ser só escuridão.

Terminando com mais uma citação que eu amo, desta vez de uma das minhas personagens favoritas em um episódio recente de Grey's Anatomy que, inclusive, apresentou de forma sutil sua versão do Dilema do Bonde, "Eu não acredito que alguém seja apenas mau. Se as pessoas fossem uma coisa só, a vida seria muito mais simples. [...]  Há luz e escuridão, e ambas coexistem. Às vezes, isso é realmente belo."

http://thecambridgees.tumblr.com/post/170234006012/13x10-vs-14x10

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