O dia que uma série me mandou pra terapia


Meu nome foi inspirado por uma personagem de novela. Eu nasci em 1986 e recebi o nome da personagem interpretada por Nívea Maria na novela Sangue do Meu Sangue em 1969. Quem escolheu foi o meu pai, de quem eu herdei o meu gosto por viagens, futebol e ficção. Minha irmã também tem nome de novela, uma das milhares de Jéssicas da década de 90, mas ao contrário dela, a minha personagem não era muito popular. O SBT fez um remake dessa novela em 1995, foi quando meu pai me contou essa história. A única coisa de que me lembro é que a personagem pegava cólera, mas não morria. Houve uma epidemia de cólera na época que a novela representava e, coincidentemente, houve uma epidemia de cólera na época em que foi exibida, o que me deixou com muito medo de pegar a doença também.

Há alguns dias, uma brincadeira fez sucesso no Twitter. Uma usuária perguntou aos seus seguidores sobre histórias de infância que revelavam a personalidade das pessoas - eu respondi com três e poderia ter complementado com a história totalmente sem graça do meu nome.

Desde pequena, eu amo ficção. Desde pequena, eu gosto de personagens impopulares. Desde pequena, eu me envolvo demais com eles. Não que eu acredite que o nome tenha tanta influência na personalidade de alguém, acredito mais em uma grande coincidência e grande influência do meu pai. Ainda assim, foi interessante quando percebi isso, em uma conversa despretensiosa no whatsapp com as amigas no clube do livro.

O primeiro personagem problemático que eu me lembro de amar (e defender com unhas e dentes) foi Paulo Guerra, de Carrossel. Depois dele, vieram tantos outros quanto os livros que eu li e novelas que assisti. Vários mais quando eu comecei a assistir séries e descobri o quanto o formato torna ainda mais fácil me conectar com essas pessoas fictícias. Há um ano, chegou ao fim a série que me deu um desses personagens - a Bay de Switched at Birth - e eu me perguntava quem iria substituí-la na tarefa de me fazer sentir coisas demais (Alex Karev também tem essa capacidade, mas meu relacionamento com Grey's Anatomy é muito complicado e eu a havia abandonado quando isso aconteceu). 
Alguns meses depois, quando assisti ao episódio 2x03 de This is Us, eu soube a resposta: Kevin Pearson.

A segunda temporada da série, cujo último episódio será exibido amanhã, dia 13 de março, tem sido um presente para todos os "Kevin fans" que passaram a temporada anterior desejando mais para o personagem mais negligenciado da série. Mas é um presente dolorido. Quase toda semana, na manhã de quarta-feira (ou, pior, na madrugada de quarta-feira), minha melhor amiga recebe uma mensagem sobre algum assunto aleatório que a série me fez pensar e sobre o qual eu preciso falar para conseguir processar - porque, como eu descobri recentemente, esse é o meu modus operandi, falar através de personagens.

O primeiro episódio deste ano - 2x11 - The fifth wheel - foi especialmente dolorido e me pegou de surpresa. Eu pensava estar preparada, dado que a série já havia feito um episódio inteiramente focado no meu personagem favorito antes do hiato e foi pesado, então eu tinha certeza que nada poderia ser pior que aquilo, mas foi. Porque uma coisa é eu ver um personagem que eu amo chegar a um fundo do poço em que eu nunca estive, ainda que consiga entender perfeitamente suas dores e motivações, mas outra coisa é ver cenas que já se passaram na minha vida e ouvir frases que eu já ouvi. Se no primeiro caso, eu passei quase uma hora andando pela casa sem conseguir dormir depois de assistir, no segundo, eu chorei até dormir, continuei ao acordar e não consegui me concentrar no trabalho enquanto não fiz alguma coisa.

Foi aí que entrou a terapia. Eu já estava pensando no assunto havia cerca de dois anos. Mas eu preciso de tempo para dar o próximo passo quando o assunto envolve lidar com meus sentimentos complicados. Não adianta a pressão externa, isso só me afasta. Foi preciso que eu me enxergasse ali, naquele personagem que, aparentemente, não tem nada a ver comigo (porque, convenhamos, todo mundo sabe que quem está ali para supostamente me representar é a Kate), para me dar a coragem de que eu precisava.

Cena do episódio 2x11 de This is Us. A terapeuta Barbra (Kate Burton), com Kevin (Justin Hartley), Kate (Chrissy Metz), Randall (Sterling K Brown) e Rebecca (Mandy Moore).
This is us 2x11 - The fifth wheel
Ser a filha mais velha sempre foi algo muito significativo pra mim. Assim como na série (e inspirados Sílvio Santos com suas 6 filhas), às vezes meus pais me chamavam de "Número 1". A diferença é que aqui nós não somos trigêmeas. De certa forma, eu sempre soube das implicações de ser a filha mais velha, até porque minha mãe e minha avó também são, mas não tinha realmente parado para pensar nisso até agora, até ver outra pessoa sofrendo pelo mesmo motivo.

Filhos mais velhos são criados para ser independentes, para dar exemplo, para tomar conta da família. Quando papai e mamãe não estão em casa, nós somos os líderes. Dizem que filhos mais velhos são mais bem sucedidos. Kevin foi o melhor jogador de futebol americano que sua escola viu; é um ator que fez sucesso na TV, teatro e, agora, cinema; ele também pinta e sabe cozinhar. No segundo episódio da série, uma frase que ficou na minha cabeça foi quando a Kate diz "você teve sucesso em tudo o que tentou na vida".

Eu fui bem sucedida em quase tudo o que já tentei fazer, de passar na UFMG sem fazer cursinho até tirar fotos bonitas pro Instagram. Qualquer falha me destrói. Pouca gente sabe, mas há 10 anos eu tentei tirar carteira de motorista. Eu tinha certeza que ia conseguir de primeira, mas não consegui, justamente porque estava confiante demais. Quando terminou o teste, eu passei em casa, peguei meu livro favorito da época, que já havia lido quatro vezes, e fui para o trabalho, sem ter coragem de contar para os meus pais, porque isso era uma vergonha muito grande. (O fim dessa história envolve o fato de que, hoje, eu não acho inteligente ter carro em cidade grande, então vai ficar para outro momento.)

Não quero ser hipócrita e dizer que tudo isso é ruim. A série também fez questão de esfregar isso na minha cara, ao colocar um personagem que se mostrou incapaz de sentir empatia pelo próprio irmão ao insinuar que, se você não é negro e adotado, você não tem do que reclamar. E isso também dói, dói muito. Dói saber que seus sentimentos são tão facilmente descartados, só porque você não tem o costume de demonstrá-los; que seus problemas são considerados irrelevantes sendo que ninguém no mundo é capaz de saber como você se sente diante deles e o estrago que eles podem lhe causar.

Switched at birth - Bay Kennish
"Só porque eu sempre tenho uma resposta afiada,
não significa que eu não quebre facilmente." Bay Kennish

Eu ainda não me sinto à vontade para falar sobre a parte que realmente me machucou e que eu percebi que não conseguiria resolver sozinha. Não sei se algum dia estarei. Semana a semana, Kevin Pearson tem me ajudado a lidar com isso e levantado questões que, às vezes, guiam minha uma hora semanal de terapia, às vezes fazem minhas amigas receberem mensagens aleatórias de madrugada e às vezes me fazem escrever tweets emputecidos antes de dormir. (Amanhã é o final da segunda temporada, e eu não faço ideia do que vou falar na terapia durante esses seis meses de hiato, mas vou assistir dois outros dramas familiares nesse período, talvez Parenthood e Six feet under me ajudem.) Em nove semanas, ainda não chorei e nem tive uma grande epifania, mas estou aprendendo a aceitar melhor meus sentimentos - inclusive não conseguir falar sobre eles ou me apegar tanto a pessoas fictícias, algo que minha terapeuta precisou dizer com todas as letras que é perfeitamente ok. Escrever sobre isso é mais um passo que eu precisava dar, por mais difícil que tenha sido. Contar para as pessoas (até agora, além de três amigas muito próximas, só quem sabe é um colega de trabalho e uma pessoa do Twitter) e ficar vulnerável a comentários que, talvez, não sejam bem-vindos.

Nunca vou deixar de me espantar com o quanto a ficção afeta a minha vida. Ainda que muita gente ache besteira, existem personagens que eu vou defender até o fim porque, sim, me ajudaram a crescer e mudaram minha vida para melhor.


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