A história por trás de uma foto


Em janeiro, fez 10 anos desde que eu criei meu primeiro blog. Eu mudei muito desde então - em todos os sentidos - e, sem querer entrar no mérito do que está melhor ou pior, a blogosfera também mudou. Em 2008, as redes sociais não eram as mesmas de hoje e não eram uma peça tão relevante nas nossas vidas como pessoas ou blogueiros. Em 2008, a gente não acompanhava blogs pelo Twitter ou pelas Fanpages, mas pelo painel do Blogger ou pelo saudoso Google Reader. Em 2008, as interações não eram por likes ou retweets, mas por comentários e e-mails.

Em 2008 também existia uma coisa chamada Blogagem Coletiva. Vários blogueiros se reuniam para definir temas e todos eles postavam algo relacionado no período determinado. Desde que os blogs-diarinho começaram a agonizar, vejo várias iniciativas para retomar as coisas boas que fazíamos quando tudo isso aqui era só um grupo de pessoas querendo falar da vida. Uma dessas iniciativas é o projeto de blogagens coletivas Amorzices, uma parceria entre três blogs que eu gosto muito, o Desancorando, o Sernaiotto e o Serendipity. O tema de Abril do Amorzices é A História Por Trás de Uma Foto.

Eu tinha desistido de postar esta semana, porque minhas férias estão acabando e eu queria aproveitar o tempo com outras coisas, mas li um post sobre esse assunto e me interessei. Coincidentemente, no sábado eu consegui fazer algo que queria há muito tempo, que era digitalizar algumas das minhas fotos antigas favoritas, o que transportou o meu lado nostálgico para várias épocas diferentes, algumas das quais eu nem me lembrava mais.

É em 2000 que vamos parar hoje.

A história por trás de uma foto
"Life was a party to be thrown, but that was a million years ago" A million years ago - Adele

Em 2000, nós ainda estávamos no século passado e havíamos sobrevivido ao bug do milênio. As Torres Gêmeas ainda existiam, o dólar valia R$1,86 e os celulares tinham apenas uma função. Em 2000, Monica e Chandler ainda não tinham se casado, Gilmore Girls não era "um estilo de vida, uma religião" e a novela ainda era "das oito". A gente chegava em casa, tomava banho, fazia o dever, jantava e ia torcer para a Helena ficar com o Edu, porque, meu Deus, a Camila era muito chata.

Em 10 de outubro de 2000, eu tinha 14 anos e me senti muito adulta quando, contrariando todas as expectativas, meus pais me deixaram ir à Ouro Preto em uma excursão do cursinho. Eu já tinha ido a excursões, mas sempre para lugares mais controlados e, muitas vezes, com minha mãe junto, sempre muito solícita para ajudar a supervisionar as crianças. Dessa vez, não. A mais famosa cidade histórica de Minas Gerais recebeu centenas de adolescentes que estudavam feito loucos para tentar conseguir uma vaga na melhor escola de ensino médio e técnico do estado.

Eu não me lembro de ter dormido mal na véspera, mas tenho certeza que aconteceu, porque até hoje isso acontece quando tenho algo importante acontecendo bem cedo. Também não me lembro de ter escolhido a minha melhor roupa, mas as fotos não mentem, eu estava usando a minha blusa de alcinha vermelha favorita e uma calça jeans boa. O que eu me lembro é de ter pedido aos meus pais um filme - porque, em 2000, fotos eram em filmes de 12, 24 ou 36, que depois precisavam ser revelados - para tirar fotos com os meus amigos, mas a verdade é que eu queria foto do menino que eu gostava (em 2000, "crush" era "o menino que eu gostava") e que só confirmou presença de última hora. O professor de Física bonitinho - que me adorava, porque eu realmente queria aprender Física e não apenas ficar olhando pra ele - não foi e nem meu melhor amigo - o que, dias depois, se revelou uma grande sorte, dado que ele gostava de mim.

Mas o menino que eu gostava foi. Acontece que a Cíntia de 2000 só gostava de meninos rebeldes e, obviamente, a turma dele jamais andaria com a minha. Ele era um dos garotos mais bonitos da classe; eu era a mais inteligente. Ele vivia sendo mandado para fora de sala; eu tinha o dom de bater papo durante toda a aula sem ninguém perceber (fui descoberta dois anos depois, pelo professor de Física do CEFET). Eu queria conhecer a cidade; ele... jamais saberemos com certeza, mas agora é fácil deduzir.

Eu estava chateada, mas, ao mesmo tempo em que precisava disfarçar, também precisava ficar atenta à possibilidade dele estar por perto. De alguma forma, eu consegui me divertir. Lembro-me das igrejas, dos morros, do museu que não era gratuito, então não entramos. Lembro-me de comer no self-service, algo que não era tão comum na minha vida como é hoje, e encontrar um pedaço de plástico no meio do arroz, de reclamar e não precisar pagar pelo prato. Eu voltei a Ouro Preto alguns anos depois, mas estranhamente, me lembro mais dessa primeira viagem. O ano 2000 tem sempre muito espaço nas minhas memórias, foi o ano que mudou a minha vida e abriu um mundo que eu não sabia que existia. Uma época cheia de pessoas que eu guardo com carinho na lembrança e nas mensagens deixadas na agenda, mas que eu gostaria de ainda ter por perto.

Esse dia foi ótimo. Foi um dos dias ótimos que tive com essas pessoas que me marcaram tanto. Mentalmente, agradeço ao menino que eu gostava por ter me feito comprar aquele filme, embora ele jamais vá saber disso (Ei, Menino Que Eu Gostava, se o acaso te mandou aqui, obrigada). Foram várias fotos legais, mas essa é uma das minhas favoritas. Não foi espontânea, alguém teve a ideia e a gente se organizou, demorou. Alguém teve que ficar de fora, não existia selfie. Já estávamos cansados, mas eu estava feliz, eu me lembro disso. Eu não me lembro especificamente de todas as fotos que tiramos, mas esta sim, provavelmente pelo trabalho que deu pra todo mundo ficar numa posição agradável numa época em que não dava pra tirar várias e escolher depois. Tanto que eu fiz questão de parar nesse mesmo lugar quando voltei à cidade e tirar outras fotos (dessa vez, digitais) lá. Provavelmente, farei o mesmo se for outra vez.

A história por trás da foto não é nenhuma grande história, mas é uma história que me faz sorrir.



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