Garota de Exatas


Quando criança, eu quis ser jogadora de basquete, escritora, desenhista, professora, cabeleireira, jogadora de futebol e repositora de produtos no supermercado perto de casa. Na adolescência, quis ser advogada, promotora, juíza. Às vésperas do vestibular, meu sonho era fazer Música e cheguei a cogitar Jornalismo.

Pensando apenas nisso, parece obra do acaso que eu tenha acabado na Computação. Não foi.

Há alguns dias, a filha de uma amiga postou a foto do livro de matemática com exercícios de números binários, e me lembrei da história de quando eu aprendi binário. Na quinta série, minha escola estava trocando os livros didáticos e resolveu doar alguns dos antigos para quem quisesse. Não me lembro o motivo, mas eu acabei pegando um de matemática da sétima série. A maioria das crianças ficaria frustrada com isso, mas eu adorei. Comecei a folhear o livro, li os tópicos que mais me interessavam e fiquei fascinada ao descobrir que existia outro sistema numérico além do decimal que utilizamos no dia-a-dia.

No ano anterior, uma professora havia levado minha turma para assistir Jumanji no teatro improvisado do colégio. Eu me lembro de ter sentado no fundo e ficado com muito medo. Minha então melhor amiga, Rebecca, disse que era um filme de terror muito assustador e eu sempre fui medrosa. Quando ela percebeu o que havia feito, me chamou para uma sala escura que ficava atrás de onde estávamos (o que, pensando bem, foi uma péssima ideia para alguém que já estava com medo) e que descobrimos estar cheia de computadores. Foi a vez dela ficar assustada enquanto eu tocava em tudo e apertava teclas aleatórias no teclado para interromper a proteção de tela.

Isso aconteceu em 1996. Cinco anos depois, aprendi a programar no curso técnico e ganhei meu primeiro computador, que não durou nem três meses. Mais cinco anos, depois de fazer todo o curso de informática e metade da faculdade de computação, foi que comprei meu primeiro computador novo, que não era dos melhores, mas ficou alguns anos comigo. Mas essa dificuldade financeira não me impediu de aprender a programar.

Semana passada, eu assisti ao filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures). Eu sei que estou dois anos atrasada, mas filmes não são o meu forte, considero esse um tempo curto. Há alguns meses, eu li o livro e, embora não tenha gostado de como a autora escolheu contar a história, fiquei fascinada com aquelas mulheres, e esse fascínio aumentou com o filme, a ponto de me emocionar em alguns pontos. Não por serem mulheres e negras fazendo a história em um ambiente predominantemente masculino e branco, mas pela sua paixão por aquilo que faziam.

Eu não sei em que momento da História as ciências exatas passaram a ser tão temidas pelos estudantes, mas isso é algo que me deixa triste. Entristece-me que as pessoas, desde tão jovens, internalizem que Matemática é difícil, que é coisa de nerd, que elas nunca vão aprender, que não são inteligentes o bastante. A Matemática é linda. A Física, então! A Computação paga as contas, foi a escolha certa, é aquele relacionamento estável para a vida toda, mas a Física é minha grande paixão. No dia da morte de Stephen Hawking, que foi um dia conturbado, uma coisa que me deixou feliz foi ver as pessoas conversando sobre Física e desejei de coração que muitas crianças estivessem vendo aquilo e se interessando.

As Ciências Exatas estão ao nosso redor o tempo todo. Aqueles números binários são a base para o computador em que digito este texto. O movimento parabólico está na cobrança de falta do seu time do coração. Uma música só é agradável se todos os instrumentos estiverem vibrando nas frequências corretas.

Tem uma TED Talk que eu adoro e que fala sobre isso. Não sei se já postei o link aqui alguma vez, mas recomendo muito para professores e pais, porque eu acho que as crianças precisam ser incentivadas a enxergar a beleza dos números e princípios matemáticos, a enxergar a Física além das fórmulas, a entender o que acontece dentro de um computador. Ainda que nem todos sigam nessas áreas, não é um conhecimento inútil. A gente absorve conhecimento inútil o tempo todo e está tudo bem, mas por que não investir um pouco em adquirir conhecimentos que te ajudarão a exercitar áreas diferentes do cérebro?


E você, adulto: Nós gritamos tanto, o tempo todo, para acabar com os preconceitos, que tal acabar com esse também?

Falando em preconceitos, uma coisa interessante que eu notei enquanto lia Estrelas Além do Tempo foi o pragmatismo de alguns personagens (reais, já que o livro é uma biografia). Muito se fala sobre machismo nas profissões de exatas e eu já contei como encaro esse tipo de coisa. Não há como negar que são profissões majoritariamente masculinas, eu fiz o curso técnico em uma classe com 15 meninas para 25 meninos, na faculdade a taxa era de 5 pra 35 e hoje, no meu trabalho, somos apenas 3 mulheres para cerca de 20 homens. Talvez essa diferença ocorra porque as mulheres são menos incentivadas a entrar nessa área, o que pode acabar prejudicando até mesmo as que se aventuram. Mas aquele livro me abriu os olhos para algo que, em 14 anos de profissão, eu ainda não havia percebido: Para uma mente de exatas, o que vai importar é o resultado.

No filme tem uma cena em que o superior de Katherine Goble, a computadora em quem John Glenn confiou para conferir os cálculos de sua primeira viagem ao redor da Terra, destrói as placas dos banheiros "de branco" e "de cor", porque sua funcionária estava perdendo tempo demais para ir ao banheiro do outro lado do campus. É praticidade, é resolver problemas, é focar no que importa. E eu não consigo deixar de pensar que, embora a solução dos problemas da humanidade não esteja nos números, eles podem nos ajudar a recuperar o foco. Não vale a pena tentar?

Ninguém é obrigado a gostar de nada, ninguém é obrigado a se esforçar no que não gosta. Mas, como a Garota de Exatas que relaxa fazendo exercícios aleatórios de Física na internet quando chega do trabalho (juro que não sou maluca), eu os convido a não torcer o nariz da próxima vez que vir as palavras "matemática" ou "física" na sua frente. A estimular as crianças e adolescentes a aprender. A conferir o troco.

Se quiser ler sobre matemática por alguém que não é uma Garota de Exatas, leia este post do Annie Escreve: Querida Matemática. Se quiser alguma dica ou, simplesmente, conversar sobre o assunto, a caixa de comentários do blog está sempre aberta, assim como as minhas redes sociais. Vamos trazer para o mundo mais amor pelas Exatas.

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