Uma dobra no tempo



Meg Murry é uma garota de 13 anos que teve uma criação diferente da maioria dos adolescentes. Seus pais são dois cientistas brilhantes que investigam os mistérios do universo. Ou, pelo menos, investigavam. Alex Murry desapareceu há quatro anos, deixando a mulher, a filha e o filho adotivo Charles Wallace, agora com 6 anos. Desde então, Meg nunca mais foi a mesma.

Uma dobra no tempo - o filme - encontra Meg tendo problemas na escola no aniversário de quatro anos do desaparecimento de seu pai, quando tanto seus colegas quanto os professores parecem se empenhar em produzir comentários maldosos na presença da menina e de seu irmão, por quem ela nutre uma adoração recíproca.

A história de Meg é a típica jornada do herói. A normalidade de uma vida sem o pai é desafiada pelo aparecimento de três seres estranhos, as senhoras Queé, Quem e Qual, interpretadas respectivamente por Reese Whiterspoon, Mindy Kalling e Oprah Winfrey, já conhecidas de Charles Wallace, que convocam as crianças a uma aventura que pode trazer o pai delas de volta.

Assim como no livro, o grupo - composto também pelo amigo Calvin - tessera pelo universo até chegar ao assustador planeta de Camazotz, onde uma figura maligna, chamada apenas de It ou Aquilo na tradução para o Português, mantém preso o Sr Murry e quer prender também seus filhos.

Quando comecei a ler o livro de Madeleine L'Engle, há cerca de dois meses, eu tinha uma preocupação: Que a história fosse uma fantasia forte, gênero do qual eu não gosto e pouquíssimos livros em atraem. Porém, fui surpreendida ao encontrar dois estilos que estão entre os meus favoritos, a ficção científica e a ficção cristã. Ciência e religião são frequentemente colocadas como extremos opostos e não conheço outros livros que consigam unir os dois. A autora faz isso muito bem, usando a minha querida Física para explicar o universo ao mesmo tempo em que utiliza citações e conceitos bíblicos para explicar o mal que as crianças precisam vencer. A fantasia está ali, mas sua base está na mitologia cristã, a que eu, como cristã, considero verdadeira, então minhas preocupações foram rapidamente dissipadas.

No filme, as referências à religião cristã foram completamente removidas, mas sua essência continua presente. E é sobre isso que eu quero falar.

Como os leitores frequentes do blog devem saber, eu não assisto a muitos filmes. Não entendo de direção, de fotografia, de ângulos de câmera, nada disso. Mas tenho três décadas de experiência em me identificar com personagens. Para mim, foi muito fácil me identificar com Meg. Sua teimosia e pavio curto são defeitos que compartilho, embora tenha aprendido a controlar meu temperamento ao longo dos anos.

Embora tenha soado piegas em algumas cenas, principalmente quando na voz de Oprah, a história passa mensagens muito relevantes. Em sua aventura, Meg aprende que merece ser amada mesmo com todos os seus defeitos e que cada pessoa trava suas próprias lutas, das quais ela não faz a menor ideia. Em uma das minhas cenas favoritas, vemos, junto com a menina, flashes do diretor da escola, da colega que implica com Meg e de Calvin, o amigo que os acompanha na jornada. É uma mensagem de empatia, de novo essa palavra que a gente se cansa de ouvir, mas ainda tem dificuldades de aprender. Também é uma mensagem de amor, quando Meg que percebe que não é o ódio que nutre por Aquilo que vai vencer seu inimigo, mas o amor. Eu adoraria que todas as pessoas entendessem isso e que todos nós conseguíssemos agir de acordo com essa verdade, por isso não me importa quantas outras histórias já tocaram nesse assunto, elas continuam sendo necessárias.

Eu adoro relacionamentos de irmãos na ficção e um dos pontos altos dessa história, mais forte no filme que no livro, é a sincronia entre Meg e Charles Wallace. Há um mês, o filipino-americano Deric McCabe, foi apontado pela revista americana People como um dos "nomes mais quentes da Hollywood jovem", juntamente com Raegan Revord (minha filha Missy Cooper, de Young Sheldon), Parker Bates (meu pequeno Kevin Pearson, de This is Us) e a já veterana Bailee Madison. Destaque mais do que merecido. O garotinho é incrível, seja nas cenas em que demonstra a inocência do doce e inteligente caçula dos Murry, quanto nos momentos de tensão em que o pequeno se torna apenas uma carcaça sem emoções nas mãos de Aquilo.

Infelizmente, não posso dizer o mesmo de Calvin. Se no livro o garoto tinha um motivo para estar lá e demonstrava uma personalidade própria, no filme, com exceção da cena já citada, desde o início fica bem claro seu interesse por Meg, tornando despropositada sua presença na aventura. No livro, meu personagem favorito; no filme, dispensável.

Eu também dispensaria algumas cenas na primeira metade do filme para dar espaço a algumas explicações no final. Se eu não tivesse lido a obra original, ficaria confusa com relação às casas com pessoas sincronizadas e à importância das crianças não se renderem à frequência do mal. Do jeito que foi feito, a teimosia de Meg foi apenas uma característica, não algo determinante para sua vitória.

De qualquer forma, gostei muito da história, tanto em sua forma original quanto na adaptação, pois apresenta de maneira lúdica alguns princípios que eu valorizo e prego, além do amor pela ciência. Que Uma Dobra no Tempo seja um sucesso e desperte nas crianças não apenas esse amor, mas também a luz que vence a escuridão de Camazotz.

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