De Copa em Copa


O tempo é um trem esquisito.

Aos 8 anos, aprendi com a Copa de 94 (minha favorita) o que significa torcer. Aos 8 anos, eu queria ser professora, ou cabeleireira, ou repositora de mercadorias no supermercado. Enquanto as colegas gostavam do Raí, eu tinha uma crush no jogador Leonardo, que partiu meu coração ao ser expulso. Já torcia para o Cruzeiro, time que escolhi depois de perceber que azul é a cor mais bonita de todas, via os jogos com meu pai, no bar do pai de uma amiga, intercalando a torcida com os nossos próprios jogos de queimada ou vôlei, já que na rua as meninas não podiam jogar futebol.

Quatro anos depois, a seleção me encontrou mais madura - ou, pelo menos, eu pensava isso. Aos 12, eu já usava sutiã, já ia para a escola sozinha e já tinha sofrido algumas decepções na vida, já tinha vivido algumas tristezas mais reais que uma derrota para a França. Aos 12, eu achava que era adulta e queria trabalhar, queria ganhar dinheiro com meus bordados em ponto-cruz para comprar elástico e brincar na hora do recreio. Aos 12, eu queria ser advogada. Queria me casar, ter 2 filhos e viajar de novo pra praia, o mais longe que conseguia enxergar.

Aos 12, quatro anos parece muito tempo. É difícil enxergar tanto tempo à frente. Eu não fazia ideia de como minha vida ia mudar radicalmente e como a Copa de Japão e Coréia iam me encontrar diferente.

Em junho de 2002, eu peguei uma gripe forte, que me derrubou e me impediu de ver a primeira fase do time que nos trouxe o Penta - ou sacrificava os jogos da madrugada ou os estudos de dia inteiro. Estudar, estudar, estudar. Era tudo o que eu fazia desde que minha vida mudara radicalmente com um folheto. O Penta veio e lá se foi a minha voz.

Aos 16, tudo é muito intenso. Foi um dos anos mais definidores da minha vida, em todos os sentidos. O mundo estava aberto diante de mim, eu podia tudo e queria tudo. Queria ser cantora e viajar o mundo, mas também queria fazer faculdade de Física e passar a vida estudando o universo que tanto me fascina.

Aos 20, porém, a gente já percebeu que não pode ter tudo. A Copa de 2006 é a que eu menos me lembro. Foi o ano em que eu tive minha carteira assinada pela primeira vez e o ano em que eu tive a minha primeira grande paixão; o ano em que eu deveria começar a me sentir adulta. Mas não dá para sentir muita coisa quando você trabalha de manhã, estuda à tarde e passa seis horas por dia em diversos ônibus. Na memória, ficaram apenas a eliminação brasileira e a final, onde comemorei um tetra pela segunda vez na vida, agora pelo país que eu nem conheço, mas já considero pacas. (Italia, ti voglio bene. Aspetto poterti visitare presto.)

Aos 20, a gente já tem uma ideia do que quer para os próximos anos e já se frustra quando não consegue. A Copa da África do Sul me pegou frustrada e cansada, questionando as decisões que fizera antes, mas sem forças para mudar. Aos 24, a gente está naquela fase "revoltz", quando ser adulto é a pior coisa do mundo. É difícil se encontrar. Mas a gente se encontra, sim.

Quando somos adultos, o tempo desafia os cientistas e passa cada vez mais rápido. Olhando agora, porém, os quatro anos entre 2010 e 2014 parecem ter sido uma eternidade. Muita coisa aconteceu, coisas boas e ruins. Aos 28, eu encontrei meu primeiro cabelo branco. Já era adulta, mas também já tinha aprendido a gostar de ser adulta. Em 4 anos, eu amadurecera muito. Em 4 anos eu fiz amigos, tomei gosto pelas viagens e decidi que queria falar o maior número possível de idiomas. Mas também, naqueles quatro anos está o pior dia da minha vida, o dia em que eu tive que ser adulta de verdade e, na dor, descobri coisas sobre mim que eu antes não tinha ideia.

A Copa de 2014 me encontrou desempregada e ansiosa por respostas. Foram quatro meses estranhos, de fevereiro a junho. Minha confiança, meus planos, minhas certezas, foi tudo destruído. Eu não acho que o trabalho seja tudo na vida de uma pessoa, mas, para mim, era o ponto de estabilidade e, de repente, ele não estava mais lá. Até que um dia, quando passeava no shopping depois de buscar os ingressos para a partida entre Costa Rica e Inglaterra, no mesmo Mineirão que poucas semanas depois sediou a nossa humilhação perante a Alemanha, minha vida mudou novamente e eu recebi a ligação que nem esperava mais.

O tempo é um trem esquisito, porque os mesmos quatro anos que levaram uma eternidade para passar nas primeiras copas de que me lembro, voaram de 2014 pra cá. Depois de quase 10 anos trabalhando no mesmo lugar, começar em um emprego novo foi como me descobrir novamente. Esses quatro anos foram uma jornada, como a temporada de uma série ou um longo torneio de futebol. Muitas vezes - MUITAS VEZES - eu vi os amigos goleando suas finais e me perguntei quando seria a minha vez, quando meus esforços seriam recompensados.

Pouco antes de começar esta Copa, apareceu no Twitter a imagem do Gabriel Jesus pintando a rua em 2014 e a pergunta: Onde você estava na última Copa e onde você está agora. Aquilo me atingiu em cheio, porque eu estava no mesmo lugar. Eu fiz, eu me esforcei, coisas aconteceram, mas me perguntava o que havia feito de errado para não ter conseguido concretizar nenhum dos planos esboçados já há quatro anos.

Mais uma vez, eu estava procurando emprego. Sou muito grata por tudo o que eu vivi nos últimos quatro anos e pelas pessoas incríveis que conheci, uma gratidão que mal consigo expressar, mas eu sentia que era o momento de seguir em frente, aquela longa temporada precisava acabar.

Vou contar uma coisa aqui que nem as minhas melhores amigas sabem por inteiro, só contei para minha terapeuta: Eu tinha certeza que ia conseguir um emprego em abril, durante as minhas férias. Não sou uma pessoa otimista, mas fui naquele momento e me agi confiando que ia acontecer. Entre outras coisas, eu tinha um post inteiro na minha cabeça falando sobre isso. Quando não aconteceu, foi uma das maiores frustrações da minha vida. E eu não conseguia mais escrever. Foi por isso que o blog parou. Por isso, pensar sobre a Copa me deixava triste. Seria a primeira vez desde 2002 que eu passaria uma Copa do Mundo sem escrever nada a respeito, porque não conseguiria vir aqui e admitir que falhei comigo mesma e com os meus planos (desde 1998, se contar meus trabalhos de escola).

Racionalmente, eu sabia que não era assim tão grave. Em quatro anos, eu tirei uma certificação, fiz uma pós graduação internacional, viajei para o exterior duas vezes, estudei três idiomas e experimentei várias coisas legais. Mas, novamente, minha profissão é aquela parte da minha vida em que eu me apoio e que me dá condições (literalmente e figurativamente) de viver as demais.

Enquanto assistia aos jogos com os colegas legais que levaram antenas e configuraram monitores para ninguém perder nada, eu torci muito. Torci pelo Brasil, pela Islândia, pelo Egito, pelo Irã, pela Colômbia, pelo Uruguai e muitos outros. Contra a Argentina, a Alemanha, a França, a Inglaterra, Portugal. Lamentei a ausência da Itália, da Irlanda e do Chile. Cornetei os nossos jogadores e os jogadores dos outros. Principalmente, torci para que algo acontecesse.

Aconteceu. Ao fim da tarde do dia 25 de junho, eu recebi o telefonema que esperava. Depois de cinco horas de entrevista, oito pessoas concluíram que eu sou boa o bastante para entrar em uma empresa tão disputada. E, no momento em que esse post for publicado, eu estarei a caminho do meu primeiro dia dessa nova fase.

Essas três últimas semanas foram uma mistura de emoções. Teve a ansiedade, o medo, a síndrome do impostor. Teve a alegria pelos planos retomados, mas também a melancolia por deixar pessoas que eu quero muito manter na minha vida. Principalmente, teve o carinho dessas pessoas e muitas palavras de encorajamento das quais eu espero nunca me esquecer.

Teve a decepção pela derrota do Brasil, mas também aquela empolgação que só o brasileiro tem de já começar a torcer para o Hexa chegar em 2022.

Muitas pessoas fazem planos para cinco anos; eu, agora, faço para quatro. Nossas cinco estrelas e nossa torcida incomparável garantem que ainda somos o país do futebol, então por que não planejar minhas conquistas dessa forma?

Que nos próximos quatro anos nós possamos viver intensamente e nos tornar pessoas melhores a cada dia. Que eu esteja cada vez mais próxima do meu próximo objetivo. Que os nossos jogadores estejam prontos para nos trazer a sexta estrela.

O tempo é um trem esquisito e nossa percepção dele nos engana. Mas em quatro anos, muita coisa pode acontecer.

CONVERSATION

Back
to top