Eu li - Os livros do ano (II)


O segundo trimestre de 2018 foi conturbado para mim. Apesar de ter começado com férias e viagem, também teve estresse e frustração que impactaram em todas as áreas da minha vida, sendo a leitura uma delas: Com muito custo, cheguei aos três livros em três meses. Embora eu não seja dessas pessoas que se obriga a ler e se sente mal por ter dezenas de livros intocados na estante, eu sinto muita falta. Tenho sentido falta de livros que me fazem sentir. Na medida do possível, continuarei tentando.

Eu li - Os livros do ano (II)


Vinte garotos no verão (Sarah Ockler)


"Quando alguém que você ama morre, as pessoas perguntam como você está, mas não querem saber de verdade. Elas buscam a afirmação de que você está bem, de que você aprecia a preocupação delas, de que a vida continua. Em segredo, elas se perguntam quando a obrigação de perguntar terminará (depois de três meses, por sinal. Escrito ou não escrito, é esse o tempo que as pessoas levam para esquecer algo que você jamais esquecerá).

As pessoas não querem saber que você jamais comerá bolo de aniversário de novo porque não quer apagar o sabor mágico de cobertura nos lábios beijados por ele. Que você acorda todos os dias se perguntando por que você está viva e ele não. Que na primeira tarde de suas férias de verdade você se senta diante do mar, o rosto quente sob o sol, desejando que ele lhe dê um sinal de que está tudo bem."

Depois de tentar engatar livros mais pesados, decidi procurar um romance adolescente bem leve para vencer o cansaço e o desânimo. Funcionou. Vinte Garotos no Verão atendeu à minha expectativa de ser fácil de ler, mas sem ser uma história superficial.

É engraçado ler livros adolescentes quando os personagens têm metade da minha idade. Em nosso pedestal de adultos, nós frequentemente nos esquecemos de como essa época é dramática cheia de emoções conflituosas. A autora Sarah Ockler escreve bem e transmitiu de forma realista os conflitos - internos e externos - da protagonista Anna enquanto lidava com a perda trágica de seu primeiro amor e via sua melhor amiga desaparecer em seu próprio luto após a morte do irmão. Matt morreu e agora eles não formavam mais um trio inseparável.

Qualquer um que já passou ou acompanhou alguém passando por uma perda dessas sabe o quanto é difícil seguir em frente por um caminho desconhecido. Seu mundo se transforma e você precisa reaprender as regras da vida enquanto o tempo continua passando. Fica ainda mais complicado quando todos ao seu redor também estão aprendendo, caindo e levantando em tentativas de sobreviver.

Vinte Garotos no Verão é, sim, um romance adolescente, mas que também tem esse lado do recomeço, de Anna e Frankie redescobrindo quem são sem aquele que as completava. Há alguns pontos em que poderia melhorar, especialmente na caracterização dos pais de Frankie e Matt, mostrando um pouco mais deles e focando menos nas aventuras das meninas na praia. Mesmo assim, é uma jornada bonita e bem escrita.

Scrum - A arte de fazer o dobro do trabalho na metade do tempo (Jeff Sutherland)


"Se você já foi surpreendido por quão rápido o mundo está mudando, Scrum é uma das razões. Para aqueles que acreditam que deve haver uma maneira mais eficiente de se fazer as coisas, este é um livro instigante sobre o processo de gestão que está mudando a maneira como vivemos. Desde o advento do método, já foram registrados ganhos de produtividade de até 1.200%. Jeff Sutherland, empreendedor que desenvolveu a primeira equipe Scrum há mais de vinte anos, apresenta a iniciativa de maneira brilhante e lúcida.

Tecida com insights de artes marciais, tomadas de decisão judicial, combate aéreo avançado, robótica e muitas outras disciplinas, Scrum é sempre fascinante. Seja para inventar uma tecnologia pioneira ou para estabelecer os alicerces de prosperidade de uma família, a razão mais importante para ler este livro é que ele pode ajudá-lo a alcançar o que outros consideram inatingível.

Jeff Sutherland escreveu a essência do Scrum para as pessoas comuns. Este livro eleva o Scrum de uma ferramenta para resolver problemas para um modo de vida."

Scrum é um conjunto de ferramentas de gestão, muito utilizado no desenvolvimento de software, ao qual fui apresentada há cerca de quatro anos e que se tornou parte da minha vida, não apenas no âmbito profissional. Com este livro, escrito por um dos seus criadores, o seus métodos e práticas ganharam ainda mais a minha admiração.

Este não é um livro para aprender o framework, mas para conhecer sua história, princípios e práticas através de várias outras histórias de sucesso ou fracasso na gestão de projetos (de software, de engenharia, militares e até de educação). Jeff abre com o fracasso das agências de segurança e inteligência norte-americanas em prevenir os atentados do 11 de setembro de 2001, quando vários de seus escritórios possuíam informações valiosas que, em conjunto, teriam acendido um enorme sinal vermelho, mas que não foram conectadas devido à falta de um sistema eficiente para integrá-las. Essa foi uma das minhas histórias favoritas e uma dose de energia para continuar e conhecer as demais.

No meio, o livro fica um pouco mais lento, talvez por eu já conhecer e utilizar algumas das práticas que ele conta, mas volta a ficar ótimo no final, especialmente com a história do sistema educacional Holandês e da constituição Islandesa, ambos utilizando o Scrum.

Em resumo, foi uma das melhores leituras do ano até agora e recomendo para todos os que se interessam minimamente por organização e gestão.

Incidente em Antares (Érico Veríssimo)


"Em dezembro de 1963, uma sexta-feira 13, a matriarca Quitéria Campolargo arregala os olhos em sua tumba, imaginando estar frente a frente com o Criador. Mas logo descobre que está do lado de fora do cemitério da cidade de Antares, junto com outros seis cadáveres, mortos-vivos como ela, todos insepultos.

Uma greve geral na cidade, à qual até os coveiros aderiram, impede o enterro dos mortos. Que fazer? Os distintos defuntos, já em putrefação, resolvem reivindicar o direito de serem enterrados - do contrário, ameaçam assombrar a cidade. Seguem pelas ruas e casas, descobrindo vilanias e denunciando mazelas. O mau cheiro exalado por seus corpos espelha a podridão moral que ronda a cidade.

Em Incidente em Antares, Érico Veríssimo faz uma sátira política contundente e hilariante que, mesmo lançada em 1971, em plena ditadura militar, não teve receio de abordar temas como tortura, corrupção e mandonismo."

Fechando essa pequena lista de três livros muito diferentes entre si, está Érico Veríssimo, também autor dos clássicos O Tempo e o Vento e Olhai os Lírios do Campo. Eu nunca havia lido nada do autor, mas me surpreendeu que Incidente em Antares continue tão atual quase cinquenta anos após o seu lançamento, tanto em seu aspecto político quanto no sobrenatural.

Zumbis estão na moda, mas não foram inventados pelos produtores de The Walking Dead. Em 1971, Veríssimo escrevia sobre sete cadáveres que deixaram seus caixões, protestando para que, se seus corpos já estavam em estado de putrefação, sua dignidade fosse mantida com um enterro. Mas até mesmo essa dignidade é questionada, sutilmente, quando percebemos a hipocrisia que cerca os habitantes - vivos ou mortos - da pequena cidade no sul do país.

O livro tem duas partes. A primeira - Antares - conta a história da cidade e, por mais que não pareça durante a leitura (e eu ainda acho que poderia ter sido resumida), é importante para o entendimento da segunda - o Incidente. O Incidente é quando a ação acontece, quando os mortos descem para a praça central, liderados pelo advogado Cícero Branco, um covarde que não vale nada nem depois de morto, e resolvem esfregar todos os podres da cidade na cara dos vivos. 

Mostrando recortes da vida de vários personagens naquele dia, o livro não conseguiu fazer com que eu me afeiçoasse a nenhum deles e esse foi meu maior problema. Eu esperava gostar, dado que são muitas pessoas horríveis, mas a história não tem o objetivo de guiá-los no caminho da redenção, apenas de mostrar aquele momento de suas vidas e contar o desfecho do incidente.

Como crítica política e social, o livro é pertinente e um tanto desalentador, dado que pouco parece ter realmente mudado em todas essas décadas. Recomendo para quem gosta de ficções políticas e provocadoras.

Além dos três, estou com outro livro pela metade, que gostaria de ter terminado para escrever também sobre ele, mas que vai ficar para o próximo trimestre. Espero que seja melhor do que o que passou, em todos os sentidos.

E você, o que anda lendo de bom?


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