2018


Quando 2018 começou, eu estava na praia de Icaraí, em Niterói, vendo os fogos com amigos que são uma segunda família. Ao apreciar aquele show de luzes, eu, que sempre me encantei com o céu e com o mar, me emocionei. Dizem por aí que o que você fizer na virada do ano é o que você vai fazer durante o ano todo e, naquele momento, eu estava feliz. Eu adoraria continuar daquela forma pelos 365 dias seguintes. Ao mesmo tempo, eu estava melancólica. 2017 não fora ruim, mas também não fora um ano digno de fogos de artifício. Eu sentia minha vida parada já havia algum tempo e, por mais que me esforçasse, não via recompensa. Então, ali na praia de Icaraí, vendo os fogos ao lado de pessoas que eu amo, eu desejei mudança, eu desejei movimento, eu desejei que alguma coisa acontecesse. Desejei aqueles fogos dentro de mim.

Eu imagino Deus me olhando lá de cima e rindo, sarcástico, porque eu jamais poderia imaginar o que estava por vir. Às vezes, eu brinco dizendo que minha vida é uma série; se fosse, a temporada 2018 seria uma das melhores. Teve drama, teve lágrima, vilão e trapaça, mas também teve um plot twist que superou a todas as expectativas, coadjuvantes maravilhosos, teve comédia pra rir até chorar e um cliffhanger pra ser resolvido nos primeiros episódios de 2019 - tudo com legenda em inglês e espanhol.

Ainda bem que eu comecei a fazer terapia antes de tudo isso começar. Já contei aqui como Kevin Pearson e o episódio 2x11 de This is Us me mandaram para a terapia depois de me fazer chorar por 13 horas seguidas. Hoje, quase um ano depois, eu posso dizer que essa foi uma das melhores decisões que já tomei na vida e que meu ano teria sido muito diferente se eu não tivesse aquela uma hora por semana para falar dos meus sentimentos e colocar a cabeça no lugar.

Não é spoiler dizer que o grande acontecimento do meu ano foi a mudança de emprego. Antes disso, porém, muita coisa aconteceu e foi a terapia que me ajudou a manter a cabeça no lugar, a focar nos meus objetivos de longo prazo enquanto eu vivia alguns dos piores momentos da minha vida profissional e só queria fugir. Não vou entrar em detalhes, porque não quero expor os envolvidos, mas, durante cinco meses, a minha oração de todas as manhãs era para poder fazer o meu trabalho sem precisar interagir com ninguém.

Eu sei que tem muita gente que trabalha em condições muito piores do que as que eu vivi e me considero uma pessoa privilegiada por ter uma profissão onde eu posso me dar ao luxo de querer gostar do meu trabalho. Mas isso não muda o quanto eu estava sofrendo, principalmente ao pensar que todos os meus esforços pareciam ter sido em vão e eu estava longe de onde pensei que chegaria. Assim, eu chorava no banheiro enquanto a Adele cantava A Million Years Ago e tentava ficar feliz quando via as conquistas [mais que merecidas] dos meus amigos e de colegas que conseguiam sair daquela situação ruim.


Para completar, quanto mais o tempo passava, quanto mais eu demorava para receber resposta das entrevistas de emprego que fazia, mais improvável era conseguir alcançar o meu maior objetivo do ano: sair da casa dos meus pais.

Até que tudo começou a mudar.

No dia que a recrutadora da Thoughtworks entrou em contato comigo pela primeira vez, três coisas aconteceram. Primeiro, minha melhor amiga descobriu que estava grávida. Segundo, o meu parceiro de trabalho, a pessoa que mais me apoiava, saiu da empresa para um lugar muito melhor (para o qual ele ainda tentou me levar algum tempo depois). Terceiro, eu estava tão mal que não apenas não conseguia ficar feliz por eles como também não vi a mensagem no Linkedin. Só respondi uma semana depois e, começando com o pé esquerdo e a autoestima a sete palmos, eu tinha certeza que não ia conseguir. "Aquela empresa só contrata gente f*da, eu nunca vou conseguir." Mas tentei. Graças a Deus, às minhas amigas que nunca saíram do meu lado e à minha psicóloga, eu tentei, não tinha mesmo nada a perder.

Ainda me lembro da sensação que tive ao receber aquele telefonema. Era o dia 25 de junho, um mês depois do processo começar e já passava das 17h. Fazia um pouco de frio, mas não tanto, então eu estava sem casaco e comecei a tremer quando saí para a área aberta nos fundos da empresa. Ouvi, impacientemente, ao feedback da recrutadora, certa de que ela iria concluir com um "não deu, até mais, tente novamente, vlw flw" e quase não tive reação quando foi justamente o contrário. Como já contei no meu post sobre a Copa do Mundo, desde aquele momento, minha vida se resumiu a um turbilhão de emoções que hoje, seis meses depois, ainda não cessaram.

Não era só um emprego novo. Era um emprego novo em uma das melhores empresas da minha área, em todos os sentidos. Era um emprego novo tão bom que meus antigos gestores nem tentaram me convencer a ficar. Era o salto que eu esperava desde que comecei, a oportunidade de concretizar vários dos meus outros planos, a recompensa pelo esforço de vários anos.

Mudar de emprego mudou a minha vida. Eu tomo muito cuidado ao dizer isso, porque, às vezes, soa como se meu trabalho fosse toda a minha vida, e não é. Acontece que o ser humano é complexo e, por mais que a gente tente, jamais vamos conseguir compartimentalizar as coisas totalmente; se uma área da vida está ruim, as outras também serão afetadas. Mudar de emprego me mudou para melhor.

Um momento que me marcou foi quando eu cheguei ao encontro do clube do livro de agosto, um mês e meio depois de começar a trabalhar na TW. Ao me ver entrando, minhas amigas pararam de conversar e alguém disse "de longe dá pra ver como você está mais feliz". Era o melhor elogio que alguém poderia me fazer naquele momento.

Não que tenha sido fácil. Minhas primeiras semanas foram sofridas. A Síndrome do Impostor me atacou com força total, eu pensava que não iria conseguir, eu fugia das pessoas. Era tudo muito diferente do que eu estava acostumada, um novo mundo ao qual eu não me julgava pertencente. Para quem gosta de séries, eu me sentia a própria Eleanor quando chegou no Good Place.


Mais uma vez, graças a Deus, às minhas amigas e à terapia, essa fase passou. E, sim, hoje eu estou muito mais feliz.

Não só por ter um trabalho que eu gosto, mas por tudo o que torna o meu trabalho um lugar especial. Pelas oportunidades de crescimento, pelos planos que posso fazer (e vocês sabem que eu adoro planos) e, principalmente, pelas pessoas que encontrei no caminho e que tornam mais leves até os piores dias.

Quando comecei no meu emprego anterior, uma pessoa me disse que, como ali ninguém me conhecia, eu podia abaixar um pouco as minhas defesas, aceitar a vulnerabilidade e ser quem eu quisesse. Essa pessoa não está mais na minha vida, mas essa conversa nunca me deixou. Assim, dia após dia, eu tentava entregar um pouco mais de mim, mesmo quando parecia tão difícil que eu só queria sair correndo dali. (Inclusive, tem uma situação engraçada de dois colegas que vieram conversar comigo na fila do restaurante, num dia que eu "fugi" para almoçar sozinha e eu fiquei tão desconfortável que respirei aliviada quando lembrei que precisava comprar alguma coisa em algum lugar do shopping e simplesmente saí da mesa o mais rápido possível. Hoje, os dois são meus melhores amigos na empresa e eu sinto falta de verdade quando a gente passa muito tempo sem conversar.)
Quando digo que mudar de emprego mudou minha vida eu quero dizer que agora consigo aproveitar melhor o que não é trabalho. São os almoços em grupo, o videogame no final do expediente, os duetos de Total Eclipse of the Heart com as colegas de time em momentos aleatórios. Mas também é ter autonomia pra escolher meu caminho, é poder chegar cedo nos encontros do clube do livro, passar uma semana trabalhando remotamente de Foz do Iguaçu para o chá de bebê da amiga ou ter ânimo pra voltar a acompanhar futebol com meu pai (algo que eu prometia há anos, mas só cumpri depois que meus colegas me viciaram em jogar Fifa e agora eu reconheço até o uniforme do Guangzhou ou os nomes dos jogadores do Tottenham).

E também há outras mudanças, maiores. Na retrospectiva de 2017, eu disse que o momento mais marcante do ano tinha sido minha viagem a Santiago, quando eu me apaixonei pela cidade e já estava desejando voltar, apesar do susto que passei com a turbulência no voo de volta. Quem diria que era justamente pra lá que meu trabalho me mandaria, não uma, mas várias vezes. Em setembro, voltei àquela cidade linda, aonde irei novamente em janeiro, depois em março, depois em maio etc. E o sonho de ser poliglota ficou ainda mais próximo, dado que agora eu falo espanhol regularmente com meus colegas e clientes do Chile.

Por fim, mudar de emprego vai, literalmente, mudar minha vida de lugar. Sair da casa dos meus pais é um sonho antigo, tanto pelo desejo de liberdade quanto pela qualidade de vida de morar perto do trabalho, já que nós não moramos na capital, mas em uma cidade vizinha onde não tem quase nenhum mercado para a minha área. Eu até poderia ter feito isso antes, mas precisava de uma segurança financeira e emocional que eu não tinha. Agora, termino o ano com um contrato de aluguel assinado e pronta para pegar as chaves do meu primeiro apartamento no primeiro dia útil de 2019. Escrevo do meu atual quarto, cercada por caixas de panelas e utensílios domésticos que são tão meus quanto as roupas no meu armário ou os livros na minha estante. É uma aventura nova, que me deixa tão empolgada quanto ansiosa, que eu mal posso esperar para viver.

Eu sei que 2018 foi ruim pra muita gente, especialmente a nível nacional, e que 2019 não parece muito promissor. Porém, para mim, a nível pessoal, esse foi um dos melhores anos da minha vida. Essa é uma daquelas épocas definidoras, que eu nunca quero esquecer. Não que esteja tudo perfeito, nunca estará, mas hoje eu sou uma pessoa melhor e mais feliz do que eu era há um ano (há seis meses!). Ao terminar de escrever, faltando pouco mais de 24 horas para receber o ano novo, eu fico mais sentimental do que gostaria e meus olhos se enchem de lágrimas, lágrimas de gratidão e de esperança. E eu desejo, de todo o coração, que quem estiver lendo possa ter um 2019 tão incrível quanto 2018 foi pra mim.




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