Eu li - Os livros do ano (III)


2018 até começou bem, mas terminou sendo um ano de poucas leituras: 15, se eu terminar o atual, que está parado há dois meses. Foi muito menos do que eu gostaria, mas já aceitei que estou em um momento da vida muito diferente do que eu estava quando li 70 por ano e que isso não é uma coisa ruim - pelo contrário, este ano está sendo incrível. Minha estante continua crescendo e só me resta me planejar para que, algum dia, eu consiga ler tudo.

Depois do último Eu Li, quatro títulos se juntaram à minha prateleira de lidos. Continue lendo se quiser saber quais foram.

A farsa - Christopher Reich


Durante uma escalada nos Alpes suíços, o cirurgião Jonathan Ransom e sua bela esposa, Emma, são surpreendidos por uma avalanche. Na tentativa de buscar abrigo contra uma tempestade iminente, ela fratura a perna, cai em uma greta e morre.

Vinte e quatro horas depois, Jonathan recebe um misterioso envelope endereçado à mulher contendo dois recibos de bagagem de uma longínqua estação de trem. Ao resgatar as malas, ele é surpreendido por dois homens que tentam tirá-las de suas mãos. Durante a briga, o médico acaba matando um deles e deixando o outro gravemente ferido - e só então descobre que eram policiais.

No meio desse turbilhão de acontecimentos, ele jamais poderia imaginar que a situação ficaria ainda pior. Ao abrir as malas, Jonathan descobre estranhos objetos que revelam a verdadeira identidade de Emma: uma agente secreta envolvida em atos terroristas e espionagem internacional.

Procurando desesperadamente compreender os fatos e salvar a própria vida, ele se torna alvo de uma perseguição implacável, tomando parte em uma conspiração que coloca em risco a humanidade.

Sua chance de sobreviver é descobrir a realidade por trás da enigmática Emma, que, sob a fachada de enfermeira da ONG Médicos Sem Fronteiras, tinha ligações com terrorismo, manipulação de urânio e tentativas de destruição de Israel.

Eu não leio muitos suspenses, não faz meu estilo. A Farsa foi uma história que me interessou há vários anos, mas que eu ainda não tinha conseguido ler. Um problema de comprar muitos livros e demorar parar ler é que os nossos gostos mudam e o que parecia empolgante, acaba sendo só mais ou menos. Foi o caso deste livro.

Não sei se é uma característica dos suspenses em geral, mas os mistérios na identidade e motivação dos personagens, aliados às várias frentes narrativas, tornaram a história confusa. Eu passei boa parte do livro sem entender o que estava acontecendo e terminei sem entender direito como todas as partes se conectavam. Outra coisa que me incomodou foi o fato de Jonathan conseguir sair de todas as situações praticamente sozinho, como no caso mencionado na sinopse em que ele enfrenta dois policiais e acaba matando um - não é realista.

Foi um "3 estrelas", porque o enredo em si é bom e a escrita do autor te prende, mas é muito provável que eu não leia as continuações.

A amiga genial - Elena Ferrante

A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A amiga genial, é narrado por Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.

As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes.

Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.

Já falei sobre a série; agora, vamos ao livro.

Depois de ver tantos elogios à tetralogia napolitana de Elena Ferrante, eu cedi à curiosidade, mas não sem certo receio de acabar odiando. Entretanto, sua escrita cativante me prendeu desde os primeiros capítulos. Pouco a pouco, nós vamos conhecendo as personagens principais como se entrássemos em suas mentes e sentíssemos seus sentimentos. Nem tudo é dito, muitas coisas são deixadas nas entrelinhas, mas é muito fácil se identificar com elas, pois essa é uma história universal. Mudam os tempos, mudam os lugares, mas a dinâmica das amizades, com todos os sentimentos às vezes contraditórios que elas trazem, é a mesma.

Lenú e Lila se amam e se odeiam, se apoiam enquanto rivalizam, crescem não deixando de ser crianças. É tudo tão complexo e sutil quanto a própria existência. Ferrante não tem medo de ir fundo nesses sentimentos. Sem grandes acontecimentos, sem um mote definido, ela toma a voz de Lenú para apenas contar uma história de duas pessoas e terminando com um gancho enorme que me deixou ansiosa pelo livro seguinte.

O tronco do ipê - José de Alencar

O Tronco do Ipê, uma das obras de Alencar regionalista, mostra o valor atribuído à natureza pelo mestre romântico. Os leitores ficarão, sem dúvida, encantados com a história testemunhada pelo ipê, história que traz à tona valores e sentimentos, imorredouros no ser humano, como o amor e o desejo de justiça.

Gosto muito do José de Alencar desde que li Senhora, que é um dos meus livros favoritos. Gosto que ele é romântico, mas sem aquele tom meloso e idealista, e também gosto que seus livros são curtos e diretos. 

Embora seja o que eu menos gostei dentre os quatro que li, O Tronco do Ipê segue o mesmo estilo, porém com um tom de mistério. É  uma história mais velha que o tempo: Os protagonistas se amam, mas há muito ódio e rancor envolvido entre as famílias, o que acaba separando-os. Em vários momentos, a história me lembrou de Romeu e Julieta, mas, ao contrário do draminha adolescente de Shakespeare, o romance de Mário e Alice se desenvolve ao longo do tempo e acompanhamos o sofrimento dos dois, torcendo para que todos os mal entendidos sejam solucionados.

Uma curva no tempo - Dani Atkins

A noite do acidente mudou tudo... Agora, cinco anos depois, a vida de Rachel está desmoronando. Ela mora sozinha em Londres, num apartamento minúsculo, tem um emprego sem nenhuma perspectiva e vive culpada pela morte de seu melhor amigo. Ela daria tudo para voltar no tempo. Mas a vida não funciona assim... Ou funciona?

A noite do acidente foi uma grande sorte... Agora, cinco anos depois, a vida de Rachel é perfeita. Ela tem um noivo maravilhoso, pai e amigos adoráveis e a carreira com que sempre sonhou. Mas por que será que ela não consegue afastar as lembranças de uma vida muito diferente?

Eu amo histórias que envolvem universos alternativos. Quem nunca pensou "e se..."? E se eu tivesse saído antes? E se eu tivesse me sentado em outro lugar? E se eu tivesse prestado mais atenção?

Aqui, a protagonista Rachel tem seus últimos cinco anos aparentemente apagados e sua vida está muito melhor do que parecia. Será que isso é bom? 

Desde o princípio, eu desconfiei do que estava acontecendo e acertei de primeira qual era o mistério. Mesmo assim, fiquei apreensiva com a Rachel, ainda que às vezes me irritasse com a sua insistência em provar que aquela vida não era a real. O final me deixou com um misto de emoções contraditórias: Em parte, era o que eu queria, mas parte de mim tinha esperanças de ser algo melhor. Se um dos objetivos da literatura é nos fazer sentir, Uma curva no tempo foi bem sucedido e, ainda, me deixou com vontade de ler outros livros da autora. 

Bônus: Hilda Furacão - Roberto Drummond

Hilda Furacão passa-se em Belo Horizonte no início dos anos 60, Hilda, a Garota do Maiô Dourado, enfeitiçava os homens na beira da piscina em um dos mais tradicionais clubes, o Minas Tênis. Por algum motivo secreto muda-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade. Transformada em Hilda Furacão, a musa erótica tira o sono da cidade. Sua vida de fada sexual cruza-se com os sonhos de três rapazes vindos do interior: um é inspirado no notório Frei Betto, que queria ser santo, mas se tornaria frade franciscano, líder político e escritor. Outro queria ser ator em Hollywood - torna-se dom juan de aluguel. O terceiro, aquele que queria ter sua Sierra Maestra, é o próprio Roberto, narrador da história. Hilda Furacão é o desafio que o santo tem que enfrentar. O romance foi transformado em minissérie de grande sucesso pela TV Globo, com Ana Paula Arósio no papel de Hilda. 

Li Hilda Furacão na adolescência e amei. Decidi reler este ano e, apesar de ter pausado a leitura por um tempo, continuo amando.

Leitura quase que obrigatória para todo belo horizontino, essa é mais do que a história da Garota do Maiô Dourado, é também um pouco da história da cidade. Sempre me lembro dela quando passo pela Guaicurus ou pelo Minas Tênis Clube, fascinada por tudo o que aquelas ruas já viram, por todos os personagens desconhecidos que já passaram pelos mesmos lugares que eu passei. 

Desconheço o quanto a Hilda do romance tem da Hilda Maia Valentim, que morreu em Buenos Aires há quase 4 anos, mas o livro de Roberto Drummond me prende em cada um dos seus capítulos, seja falando sobre a protagonista, quanto dos demais personagens ou, simplesmente, da vida na cidade. É um livro muito mineiro, que respira a cultura de Belo Horizonte, com menção a várias ruas, bairros e estabelecimentos da cidade - o que, talvez, não seja tão atraente para quem não a conhece, mas que me encanta e e desperta todo o meu orgulho mineiro. Um livro que eu recomendo há anos e continuarei recomendando.

Espero conseguir terminar Hilda Furacão ainda este ano e espero conseguir ler mais no próximo. Enquanto isso não acontece, me digam: o que vocês estão lendo de bom? 


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