1 ano - O que a terapia fez por mim


Todas as manhãs, naquele período antes do cérebro acordar totalmente e eu fico na cama procrastinando e tentando calcular qual o horário limite para me levantar sem correr o risco de perder minha primeira reunião do dia, uma das coisas que eu faço é abrir o aplicativo do Timehop, que mostra tudo o que eu fiz nas redes sociais naquele mesmo dia dos anos anteriores. Eu sempre fui muito nostálgica, mas agora, com tanta coisa que tem acontecido desde janeiro do ano passado, é mais do que nostalgia, é quase uma necessidade de manter vivas as lembranças - os bons e os maus momentos - para entender como eu cheguei até aqui e conseguir absorver cada segundo do presente.

Assim, no dia 9 de janeiro de 2019, o Timehop me mostrou meus tweets sobre the one and only episódio 2x11 de This is Us. Eu sabia que esse episódio tinha sido no dia 9 de janeiro de 2018, mas, ao mesmo tempo, a ficha não tinha caído ainda que já faz um ano que aconteceu. Eu passei o Réveillon em casa pela primeira vez em mais de 10 anos, e a verdade é que ainda não caiu a ficha de que estamos em 2019, então eu tomei um choque quando lembrei, porque, como muitas vezes acontece com coisas que nos marcam, parece que foi ontem, mas também parece outra vida.

Aquele 9 de janeiro de 2018 foi um dia péssimo. Havia uma semana que eu estava sendo obrigada a conviver com a pessoa que, durante cinco infindáveis meses, sugou todas as minhas energias. Estava confusa, cansada, frustrada, decepcionada, sendo obrigada a fazer coisas com as quais não concordava e que sabia que iam dar errado no final. Eu já estava rachada e aquele episódio 2x11 de This is Us foi, ao mesmo tempo, a única coisa que me deu um pouco de alegria durante o dia e o peteleco que faltava para me quebrar completamente.
Exatas 44 horas depois daquele episódio começar, no dia 11 de janeiro de 2018, eu estava sentada em um corredor sem graça, em frente a uma porta com uma plaquinha que dizia "Em atendimento", esperando pela minha primeira sessão de terapia. E já faz um ano que isso aconteceu. 367 dias e 13 horas até o momento em que esse post for ao ar.

É muito estranho me lembrar disso agora. Eu, que sempre fui tão resistente à vulnerabilidade, mesmo depois de entender o quanto ela é importante, que sempre tive dificuldades para falar sobre meus sentimentos, agora estou aqui, encarnando o estereótipo da [não tão] jovem millennial que fala abertamente sobre saúde mental, tanto para ter um registro quanto para poder processar esses sentimentos e, quem sabe, ajudar outras pessoas.

Ao organizar os pensamentos, percebo que a terapia contribuiu com três ingredientes para que eu pudesse sair daquele ponto de frustração para o lugar em que estou hoje.

1. Foco

Enquanto vivia aqueles cinco meses infernais no trabalho, eu mal tinha forças para falar de outra coisa. Até tentava não irritar minhas amigas com tantas reclamações sobre o mesmo assunto, mas aproveitava ao máximo aquela uma hora semanal em que podia desabafar e contar tudo, com a confiança de que minhas palavras não se voltariam contra mim mais tarde. Falar sobre os problemas sempre foi uma ferramenta para me ajudar a encontrar uma solução e falar com uma pessoa profissional, que estava ali unicamente para me ajudar, me ajudou muito a manter o foco.

Eu já estava procurando emprego havia algum tempo, mas não conseguia, em partes, porque queria algo maior, não só sair de uma empresa para outra. Porém, quando as coisas começaram a ficar ruins, eu comecei a abaixar os meus padrões e quase prossegui por caminhos que rapidamente me deixariam estancada e insatisfeita de novo, o que eu não queria. Semana após semana, eu repetia as mesmas frases e me forçava a me lembrar dos objetivos pelos quais eu estava trabalhando havia tanto tempo. Enquanto os problemas do dia a dia desviavam meu foco para o problema, a terapia o voltava para o alvo, do qual nunca deveria ter saído.

2. Consciência

Olhando em retrospecto, toda essa jornada se divide em três fases: Na primeira, eu diria que entre janeiro e abril, algo que já não estava bom teve que piorar para que eu fizesse alguma coisa e saísse da minha zona de conforto. Na terceira, de outubro até agora, eu estou aprendendo a relaxar e a curtir a concretização dos meus planos com as pessoas que importam. E a segunda foi uma fase de transição, uma fase de entender onde eu estava e como havia chegado até ali, uma fase de ganhar consciência.

Em uma das primeiras sessões, minha terapeuta falou um pouco sobre auto-observação, auto-conhecimento e auto-controle e de como essas coisas são necessárias para conhecermos melhor a nós mesmos. À medida que as sessões progrediam, ela fazia mais e mais anotações em seu caderno, só para recuperá-las naquelas horas em que eu precisava ouvir a mim mesma falando através de outra pessoa. E esse momento não tinha nada a ver com trabalho, com as outras pessoas, nem nada externo, era um momento de descoberta, de olhar para dentro de mim e entender o que eu sentia, por que sentia e como sentia. Também é uma fase que deve voltar várias vezes até que eu dê meu último suspiro nesse mundo, porque tudo o que está vivo está em constante transformação.

Um pouquinho de cada vez, a gente vai se descobrindo, se entendendo e aprendendo a se amar.


3. Coragem

A terceira fase foi um resultado das outras duas. Ter o foco no lugar certo e estar consciente dos meus sentimentos me tornaram uma pessoa mais segura de mim mesma, me deram confiança e coragem, especialmente nos meus relacionamentos de todas as naturezas (e que, hoje, são meus tópicos principais das noites de terapia).

Coragem para ser sentimental com as minhas amigas; coragem para deixar novas pessoas entrarem na minha vida; coragem para envolver minha família em uma decisão importante.  Coragem para fazer o que está em minhas mãos para manter na minha vida as pessoas que merecem estar e para deixar as outras irem em paz.

Também coragem para escolher o que vai ser melhor para mim e arcar com os riscos, para sair da inércia confortável e buscar mais. Coragem para fazer planos mais ousados.

Eu comecei desanimada a semana em que aquele péssimo 9 de janeiro de 2018 completou um ano. Na segunda-feira, saindo para o almoço, eu perguntei a um colega "Quando é que eu posso começar a reclamar que a semana está cansativa?" e ele me respondeu "Na sexta à tarde". Na sexta-feira, depois do almoço (e de um jogo de Fifa que nós perdemos), eu disse a esse mesmo colega "Eu estou feliz, tudo o que eu tinha para fazer durante a semana deu certo" e, assim como outras pessoas que haviam visto algumas dessas coisas darem certo nos dias anteriores, ele ficou feliz por mim. Esse foi um daqueles momentos aparentemente insignificantes, mas que me trouxeram ao ponto de escrever essas palavras. Aquela semana, um ano depois de tudo começar, começou mal e terminou excelente, como que uma miniatura para não me deixar esquecer dessas três coisas que a terapia me deu de presente: Foco, consciência e coragem.

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